Apoio alimentar aumenta no Algarve e não apenas para quem perdeu o emprego
Covid-19
17 de nov. de 2020, 12:10
— Lusa/AO Online
Todos os dias durante a
tarde, são várias as famílias que aguardam pela entrega de alimentos à
porta da base logística da instituição, instalada numa casa antiga no
centro da cidade e cedida à Refood por uma família de Faro.As
entregas são feitas em dois turnos e é no segundo que a reportagem da
Lusa encontra mais de uma dezena de famílias, muitas acompanhadas dos
filhos, como Marta (nome fictício), que se viu obrigada a pedir apoio
após o ex-companheiro perder o emprego e “deixar de pagar a pensão” de
alimentos. Percebeu que “teria de perder a
vergonha” e pedir ajuda, tendo decidido recorrer a este movimento
voluntário que recolhe e distribui refeições excedentárias de
restaurantes, mas também confecionadas por voluntários, e cabazes com
alimentos.“Há vergonha, porque trabalho e
ao trabalhar não pensamos que vamos precisar de ajuda e que nos
conseguimos sustentar e aos nossos filhos. Não deveria haver, porque não
se está a roubar, mas há”, confessa.Depois
de analisada a sua situação, foi-lhe explicado que se encontrava no
limite de carência económica e, por isso, teria direito a apoio três
vezes por semana. No entanto, optou “por duas” por considerar que “é
suficiente” e, assim, “sempre fica para outros”.Marta
mantém o seu trabalho e o mesmo rendimento, mas, sem a contribuição
financeira do ex-companheiro, teve de passar a procurar os “produtos que
estavam no limite da validade” para alimentar os dois filhos
adolescentes.“A minha intenção é usar a
Refood para equilibrar as contas e depois dar lugar a outra pessoa que
necessite. Se não fosse a Refood, se calhar não conseguia já colmatar
algumas despesas”, desabafa.Ana (nome
fictício) é quem se segue na fila. Grávida de cinco meses e com “mais
três crianças em casa”, também viu na Refood a única saída para uma
situação que, diz: “já era uma confusão armada” na sua cabeça e em casa.“O
meu marido não estava a trabalhar e eu estava desempregada, a receber o
RSI [Rendimento Social de Inserção]. Agora não recebo nada, estou à
espera do abono pré-natal”, afirma à Lusa.Com
um empréstimo bancário e as “contas em atraso” recorreu à instituição
por indicação de amigos e poucos dias depois de entregar “os papéis”
recebeu uma “resposta rápida”, numa altura em que “já faltava comida” em
casa.“Foi um alívio. Tenho três crianças
em casa que precisam de comer e sem dinheiro e apoio foi muito
complicado”, confidencia com a voz embargada.À
segunda, quarta e sexta, marca presença à porta da Refood de onde leva
“leite, sopa, legumes, fruta e o que de alimento houver”. Entretanto, o
marido voltou a trabalhar “há um mês”, o que a deixa mais otimista.Segundo
disse à Lusa a coordenadora da Refood em Faro, Paula Matias, neste
momento estão a ser apoiadas “300 famílias”, às quais se somam as
"famílias em isolamento sem apoio alimentar”, mas a instituição não está
a conseguir responder a todos os pedidos.“Deixámos
de dar resposta há uma semana e meia, temos onde ir buscar mais comida
mas não temos onde a armazenar. Temos um parceiro de hotéis que nos deu
imensos congelados e não temos espaço onde colocar uma arca”, lamenta.A
casa tornou-se pequena demais para as necessidade e para a quantidade
de comida recolhida em mais de uma dezena de supermercados e vários
restaurantes locais, com uma carrinha que “começa a trabalhar às 10 da
manhã e encerra à meia-noite, com uma hora e meio de intervalo”.“O
que precisamos efetivamente é de um espaço, porque temos condições para
ajudar mais famílias. Temos comida e mão-de-obra”, refere,
acrescentando que está à procura de um espaço complementar.Neste
momento, há cerca de 200 voluntários distribuídos pelos sete dias da
semana entre a recolha, o embalamento e a entrega, mas Paula lamenta ter
de “recusar alguma ajuda que venha da comunidade” por falta de
capacidade armazenamento.Os pedidos de
apoio estabilizaram em agosto e setembro, mas desde o início de outubro
que não param de chegar novos pedidos: chegam a receber diariamente
“cinco a seis” solicitações, conta Paula Matias.“Infelizmente
a previsão é muito pessimista, cada vez há mais pessoas a passarem
necessidades, famílias que estavam estruturadas, com os seus empregos e
que, de um momento para o outro, ficaram completamente desamparadas,
porque, para pagarem as despesas não têm para a alimentação”, nota.Entretanto,
o motorista da carrinha da Refood Faro já regressou de mais uma ronda
pelos supermercados, descarregou as contribuições e está prestes a
seguir para o circuito de recolha dos restaurantes locais.Na
zona histórica da cidade, a redução dos clientes “nas últimas duas
semanas” refletiu-se também na quantidade de pratos do dia confecionados
e, logo, na disponibilidade de apoio, destaca o ‘chef’ Bruno Amaro.Redução
verificada também por outro dos parceiros da Refood em Faro, um snack
bar onde a pandemia de covid-19 os obrigou a passar a “controlar a
comida” e a “gerir o desperdício”, afirma o seu proprietário, Patrick
Martins.Também o Banco Alimentar do
Algarve, que tem 120 entidades parceiras na região, tem registado um
aumento de pedidos “nas últimas semanas”, disse à Lusa o seu
coordenador, mostrando-se preocupado com os próximos meses.Atualmente
a apoiar 25.000 pessoas, Nuno Alves, prevê que o “fechar de portas” de
muitas unidades hoteleiras “venha a aumentar” o número de pedidos de
apoio.