“Ao volante, é difícil apreciar a força e a majestosa paisagem” das Sete Cidades

Hoje 10:09 — Arthur Melo

“[Sete Cidades] É uma classificativa linda, verdadeiramente única, mas também muito exigente! Tem trechos estreitos e largos, com piso de terra misturado com asfalto. Ao volante, é difícil apreciar totalmente a força e a majestosa paisagem! Por isso, foi ótimo vê-la agora de fora do carro durante as férias”, declarou Kajetan Kajetanowicz, em entrevista ao Açoriano Oriental.O piloto polaco, campeão do mundo de ralis na categoria WRC2 Challenger (2023), tricampeão da Europa de ralis (2015, 2016 e 2017) e tetracampeão da Polónia de Ralis (2010, 2011, 2012 e 2013), esteve, no final do mês de janeiro, acompanhado pela família (mulher e dois filhos), a visitar a ilha de São Miguel e durante cerca de duas semanas provocou o alvoroço entre os entusiastas da modalidade na Região.“Há mais de uma década que os Açores me encantam, desde que competia no Campeonato da Europa de Ralis e estive aqui a correr no SATA Rallye Açores [2014 e 2015] e no Azores Airlines Rallye [2016 e 2017]. Na ocasião, prometi que um dia mostraria à minha família esta bela parte do mundo. Competir ao mais alto nível - seja no Europeu ou no Mundial de ralis - não me deixa muito tempo livre. Mas agora, que cumpri a promessa, estou muito feliz por finalmente  ter conseguido concretizar este objetivo da família Kajetanowicz e visitar os Açores”, realçou o piloto no decorrer da pausa competitiva que antecede o seu regresso às provas do Campeonato Mundial de Ralis.Nas quatro participações na prova organizada pelo Grupo Desportivo Comercial (GDC), “Kajto” - como é popularmente conhecido no mundo dos ralis - nunca conseguiu terminar no lugar mais alto do pódio.Na sua primeira participação na então “prova âncora” do Campeonato da Europa de Ralis, Kajetanowicz foi obrigado a desistir em Feteiras 1, com problemas na suspensão do Ford Fiesta R5.A curta presença naquele ano deixou boas indicações do jovem polaco que, no ano seguinte, singrou no panorama europeu da modalidade com a conquista do primeiro de três títulos de campeão da Europa de ralis consecutivos.Na edição de 2015 do SATA Rallye Açores (considerada, pelos especialistas da matéria, como a melhor edição de sempre da prova rainha do automobilismo açoriano), “Kajto” “bateu-se” pela vitória com o malogrado Craig Breen (falecido em 2023), tendo a vitória sorrido ao irlandês, relegando o polaco para o segundo lugar.Este rali, em particular, continua bem vivo nas memórias de “Kajto”, como o próprio recorda ao Açoriano Oriental.“Lembro-me especialmente da edição de 2015. Ao longo de todo o rali estivemos a lutar com o Craig Breen, troço a troço, numa luta ao segundo! Tivemos alguns problemas no final e ele venceu, mas a luta foi incrível. Aliás, em todas as quatro edições que participei, a competição foi sempre extremamente renhida. Lutamos, ao segundo, pela vitória com pilotos como o Kevin Abbring, o Alexey Lukyanuk e o ‘herói’ local Ricardo Moura [vencedor da prova em 2016]”, realçou o piloto de 46 anos, sublinhando que “os pódios conquistados em 2015 e 2016” são os momentos mais gratos que ainda guarda da prova açoriana.Se a classificativa das Sete Cidades continua a ser uma referência mundial na modalidade e o troço que a maioria dos pilotos estrangeiros elege como o melhor da prova organizada pelo GDC desde 1965, outras classificativas icónicas também marcaram todos aqueles que já correram na Região.Kajetan Kajetanowicz, que nas suas quatro passagens pela prova não tinha poupado elogios ao evento, comprovou agora que, de facto, os Graminhais e as Tronqueiras estão também no lote dos troços de rali mais exigentes do mundo.“As classificativas na zona nordeste da ilha são incríveis. Graminhais e Tronqueiras são especiais longas e exigentes, que atravessam a floresta e muitas vezes são disputadas debaixo de um denso nevoeiro”, lembrou o piloto polaco que agora compete ao volante de um Toyota GR Yaris Rally2 na categoria WRC2 Challenger no Mundial de Ralis.Nove anos depois da sua última participação na prova que agora tem a designação de Azores Rallye e que luta para voltar a integrar, a curto prazo, o calendário do Campeonato de Portugal de Ralis (a edição deste ano é prova candidata), e, a médio prazo, o calendário do Campeonato da Europa de Ralis, as suas características mantém-se vivas no imaginário dos pilotos e “Kajto” recorda também a prova açoriana pelo seu elevado grau de profissionalismo e o distinto grau de dificuldade que oferece aos participantes.“É um rali bem organizado, muito bonito, mas também muito, muito exigente – algo que experimentámos em primeira mão. Os troços têm um ritmo variável, muitas vezes percorrendo estradas estreitas, como túneis de vegetação. E depois há o clima, muito variável e imprevisível. Um verdadeiro desafio! Além disso, existe uma enorme paixão pelo rali nos Açores. Os fãs criam uma atmosfera incrível e desfrutam verdadeiramente do desporto. E isso também faz a diferença”, destaca o piloto de sorriso espontâneo que conquistou o afeto dos amantes do automobilismo açoriano desde o primeiro dia que pisou a ilha de São Miguel há 14 anos, mais precisamente em fevereiro de 2014.Cumprida a promessa feita à família, Kajetan Kajetanowicz revela, ao Açoriano Oriental, o seu enorme desejo de voltar a correr na prova açoriana.“Com toda a certeza, gostaria de competir neste rali novamente, sem dúvida alguma. Não é segredo que, nas últimas temporadas, o meu foco tem sido o Campeonato do Mundo. No entanto, e se surgir uma oportunidade de participar no Azores Rallye, não vou deixar de aproveitá-la”, realçou.O fascínio que “Kajto” nutre pela prova açoriana resulta de uma série de características ímpares que o rali reúne, desde logo, assinala, “a sua localização única. Lembro-me da minha primeira visita aos Açores e durante o reconhecimento houve momentos em que me questionei se o que estava a ver era mesmo real! Os troços e todo o seu enquadramento paisagístico são uma enorme mais-valia para o Azores Rallye, sem esquecer o seu elevado nível de dificuldade”, assinala.A segunda mais valia da prova, na perspetiva do polaco, foi a moda que começou a surgir naquela altura: as superespeciais urbanas.“Lembro-me perfeitamente da City Show que juntava uma multidão de fãs na zona litoral da cidade. Embora não contasse para a classificação, era um espetáculo para nós e para os adeptos”, assinalou.“O Azores Rallye tem uma longa e rica história. Faço votos, e desejo à sua organização, que o evento volte a adquirir o estatuto que já ostentou”,desejou Kajetan Kajetanowicz no final da entrevista.