Anúncio de Putin sobre zona de segurança mostra que não quer paz
Ucrânia
23 de mai. de 2025, 17:45
— Lusa/AO Online
"Estas
afirmações agressivas rejeitam claramente os esforços de paz e mostram
que Putin continua a ser a única razão pela qual a matança continua",
comentou o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andryi Sybiga.Putin
anunciou, na quinta-feira, a criação de uma “zona de segurança” na
fronteira com a Ucrânia, que incluiria território nas regiões de Sumy e
Kharkiv, no norte ucraniano.Fontes das
forças de defesa ucranianas disseram à agência de notícias RBC-Ucrânia
que Moscovo dará prioridade à criação desta zona durante a sua ofensiva
no verão e no outono, bem como à tomada total de Donetsk e Lugansk.Em
particular, a Rússia procurará criar um corredor de 15 a 20 quilómetros
de profundidade ao longo da fronteira, passando pelas regiões de Sumy e
Kharkiv, segundo a RBC-Ucrânia.Para além
de Sumy, Kharkiv e Chernobyl, a "zona de segurança" deverá também
incluir partes das regiões de Dnipropetrovsk, Mikolayev e Odessa, que
fazem fronteira com o território ocupado pela Rússia, adiantou hoje o
tenente-general Viktor Sobolev, membro do Comité de Defesa do parlamento
russo."Pode haver uma ‘zona tampão’, mas
em território russo", disse o porta-voz do Ministério dos Negócios
Estrangeiros ucraniano, aos meios de comunicação social, na
quinta-feira, acrescentando: "É precisamente por isso que estamos a
conduzir a operação Kursk desde o ano passado".Analistas
citados pela agência espanhola EFE questionam a capacidade de Moscovo
para fazer progressos rápidos nas regiões de Sumy e Kharkiv."Esta
não é a primeira vez que Putin fala de uma ‘zona tampão’ na Ucrânia",
disse o coronel Andri Kovalenko, do Conselho de Segurança e Defesa
Nacional da Ucrânia, na plataforma Telegram.Oleksi
Melnik, ex-conselheiro do ministro da Defesa e especialista em
segurança internacional no ‘think tank’ (grupo de reflexão) Razumkov, em
Kiev, disse hoje à EFE que "a Rússia tem tentado, sem sucesso, pôr as
mãos numa ‘zona tampão’ há um ano”.Há um
ano, a Rússia lançou uma ofensiva em Kharkiv ao longo de uma extensão de
70 quilómetros da fronteira e avançou até 10 quilómetros para o
interior, parando pouco depois perto de Lyptsi e Vovchansk, mas desde
então não fez progressos significativos, recordou Melnik."Há
poucos indícios de que a Rússia seja bem sucedida desta vez",
acrescentou, apontando para a ausência de grandes reservas a que a
Rússia possa recorrer para fazer um avanço significativo, apesar da sua
superioridade numérica.No entanto, o
analista advertiu que Moscovo utilizará mesmo o mais pequeno avanço para
tentar convencer os aliados da Ucrânia da sua invencibilidade e da
inutilidade de resistir.O Instituto para o
Estudo da Guerra (ISW), com sede nos Estados Unidos, sugere que a
Rússia poderia utilizar os possíveis avanços em Sumy para pressionar a
Ucrânia a ceder território na região durante eventuais conversações de
paz.No entanto, observou, que tomar uma
cidade da dimensão de Sumy - com uma população de 256.000 habitantes
antes da guerra - está para além das atuais capacidades da Rússia, que
não conseguiu capturar grandes centros urbanos após os primeiros meses
da guerra. A presença contínua da Ucrânia na região russa de Kursk também está a dificultar os planos de Moscovo.Apesar da sua retirada parcial em abril, as forças ucranianas ainda controlam 28 quilómetros quadrados do território russo.Isto
obriga a Rússia a manter cerca de 40.000 soldados no local para conter
um potencial avanço ucraniano, disse Melnik à EFE, limitando a sua
capacidade de reforçar as ofensivas em Sumy, Kharkiv ou Donetsk.A
ofensiva militar russa no território ucraniano, lançada a 24 de
fevereiro de 2022, mergulhou a Europa naquela que é considerada a crise
de segurança mais grave desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).