“Portugal está entre os três países da Europa que têm maior prevalência de doença mental. E se olharmos para as doenças ansiosas e depressivas, provavelmente é o país com mais prevalência de doença da Europa e da OCDE”, afirmou Pedro Morgado, médico psiquiatra no Hospital de Braga e professor na Escola de Medicina da Universidade do Minho, durante a conferência “Saúde Mental – A sociedade ansiosa”, organizada pelo Açoriano Oriental.Segundo o investigador, para este aumento da ansiedade na sociedade moderna contribuíram diversos fatores, começando pelo facto de o cérebro e o corpo humanos terem sido desenhados, ao longo de centenas de milhares de anos, para lidar com ameaças físicas imediatas da savana ou da floresta. Contudo, hoje em dia o cérebro tem de lidar com um ritmo acelerado de tecnologia e com fatores de stress abstratos, como reuniões, horários, expectativas sociais, dinheiro e likes nas redes sociais.Nesse contexto, Pedro Morgado destacou alguns dos fatores da sociedade atual que contribuem para este aumento, como a captura e monetização da atenção, a amplificação do medo e a perceção distorcida de perigo, a pressão com a imagem e o corpo, ou a ansiedade de aceitação social e isolamento.Todos estes fatores contribuem para a exaustão, uma vez que o excesso de informação, de notificações, de opções e de obrigações de ser performativo e comunicador conduz a um estado crónico de esgotamento, no qual as pessoas se sentem sugadas e exaustas.“É possível que este seja um tempo difícil, em que a ansiedade está a dominar o nosso dia a dia. Mas a última mensagem que eu vos queria deixar é a seguinte: é que nós vamos adaptar-nos”, afirmou.E, neste contexto, realçou que “o ser humano adapta-se a todas as dificuldades, mas às vezes dói”.“Primeiro mudando de comportamento, depois alinhando as nossas emoções com os nossos comportamentos, depois através da regulamentação eficaz. Nós como sociedade regulamos a imprensa. É preciso que alguém regule o que se escreve nas redes sociais porque não são os padrões da comunidade que fazem essa regulação. E só depois, daqui a 300 mil anos, é que a biologia vai fazer a sua parte. Até lá, nós temos escolha”, afirmou.Assim, a encerrar a sua intervenção, Pedro Morgado referiu que essas escolhas passam por substituir a interação digital e a mediação por ecrãs pelo contacto físico, pela presença presencial e pelo afeto genuíno, como sentir a “força de um abraço”, ou por privilegiar tempo de qualidade e com significado, em vez da acumulação de bens materiais e do ritmo acelerado de consumo. Mas também por trocar a quantidade de conexões virtuais, superficiais e sem vulnerabilidade, por relações humanas reais, profundas e presenciais, e diminuir a exposição à sobre estimulação contínua, ao excesso deinformação, às notificações constantes e à exigência de estar sempre visível e performativo.“O corpo humano, o cérebro humano demora muito tempo a evoluir e nós ainda temos o cérebro com que o ser humano lidava com leões na selva. Para que possamos lidar com estes desafios, nós primeiro temos que mudar os nossos comportamentos, as nossas formas de viver as emoções”, afirmou, apelando a um cuidado triplo (de si, dos outros e da natureza), ou seja, fazendo a opção consciente de cuidar da saúde pessoal, dos outros com quem se partilha a comunidade e do meio ambiente.