Aníbal Moura: “O que me faz sentir que deixarei um legado é ver hoje a ilha toda povoada de pequenos rebanhos de ovinos”
#empresário
29 de out. de 2024, 11:15
— Made In Açores
Como começou o seu percurso na ARCOA?
Foi em 1986 como produtor de ovinos.
Foi o auge da associação, que foi criada para o desenvolvimento da
ovinocultura nos Açores. Cerca de dez anos depois, houve uma fase em
que as pessoas começaram a desinteressar-se pela atividade,
sobretudo por terem acontecido muitos ataques de cães. De 5 mil
ovelhas ficamos reduzidos a cerca de 500. Na altura comentávamos
entre nós que talvez não valesse a pena continuar, mas eu sugeri
que nos focássemos na ilha e nos tornássemos na Associação de
Ovinos e Caprinos de Santa Maria. Assim foi e, ao longo do tempo,
fomos desenvolvendo o projeto, criando animais, alguns importados do
continente. Começou a haver interesse de novos produtores que se
foram juntando à associação e fomos sempre crescendo. A dada
altura, quando vimos que já tínhamos um número de sócios
considerável, decidimos orientar o âmbito da associação novamente
para o arquipélago dos Açores. Inicialmente, na década de 80, a
associação era só de ovinos mas, neste momento, já inclui também
os caprinos. Neste momento somos 70 sócios divididos por várias
ilhas. Para além de Santa Maria, temos sócios na Terceira, Faial,
Pico e São Miguel.
Que produtos resultam, hoje em dia,
destas criações?
Há o borrego de Santa Maria, que é a
nossa carne por excelência. Já tem o certificado Marca Açores e
estamos agora a trabalhar para que tenha o certificado IGP
(Identificação Geográfica Protegida). Gostaríamos que o processo
fosse mais rápido, mas estas coisas levam o seu tempo. Entretanto,
há cerca de cinco anos, surgiu um projeto piloto em ovinos de leite
de forma a fazer cá uma queijaria. Santa Maria era a única ilha dos
Açores que não tinha uma queijaria. Hoje em dia já fazemos queijo
de ovelha, mas a produção é sazonal. Por isso temos também o
leite de vaca, que vem dar complementaridade e mantém a queijaria
sempre aberta. Neste momento, por exemplo, não temos leite de
ovelha, mas estamos a produzir o leite de vaca cru e pasteurizado.
Quais são as principais dificuldades
que tem sentido à frente da associação?
Como somos uma ilha pequena, por mais
que os animais sejam trocados entre produtores, acaba sempre por ser
difícil garantir a sua continuação. Temos sempre de importar
animais reprodutores para que se mantenha uma boa genética e
garantir a boa qualidade da carne. A Secretaria da Agricultura
tem-nos ajudado nesse sentido. Se não fosse com o apoio dos nossos
governantes, era impensável, se bem que os apoios estão cada vez
mais difíceis. As coisas demoram, a burocracia é mais que muita.
Este foi um ano de seca tremenda, pelo que a dificuldade agravou-se
ainda mais, mas felizmente tivemos ajuda da Secretaria, nomeadamente
com a importação de um contentor de fibra para os ovinos. Estamos
agora a mobilizar esforços para que venha feno do continente. A
nossa ideia nunca é que seja o Governo Regional a pagar pelos
animais. A ajuda que pedimos é nos transportes, porque estes chegam
a ser mais caros que os próprios animais. É o problema de vivermos
em ilhas.
Ao longo destes anos ao serviço da
associação, o que destaca como algo que o tenha deixa orgulhoso?
Sinto-me orgulhoso do trabalho feito
porque é árduo e, muitas vezes, nem é reconhecido, mas isso faz
parte. O que realmente me apraz e me faz sentir que deixarei um
legado é ver hoje a ilha toda povoada de pequenos rebanhos de
ovinos. Há uns anos quase não havia ovelhas em Santa Maria e agora,
ao dar uma volta pela ilha, vemo-las a pastar. O que é ainda mais
gratificante é ver jovens a pegar nesta atividade. Há uns anos,
como falámos inicialmente, isso seria impensável. Agora a situação
dos cães está mais controlada e os ataques são cada vez menos
frequentes. Mas quer queiramos, quer não, os ovinos e caprinos
continuam a ser o parente pobre da vaca. Elas têm muito mais peso na
região, não há como fugir a isso. Mas outra coisa que me põe
muito orgulhoso é estar à frente deste projeto da queijaria. Já
tinham sido feitas várias experiências em Santa Maria mas nunca se
tinha conseguido pôr um queijo no mercado. Hoje temos queijo de
ovelha, queijo de mistura de vaca e ovelha, o pasteurizado e o cru de
vaca, o requeijão de vaca e o requeijão de ovelha. São produtos
que trabalhamos e que me dá muito gosto termos no mercado. São o
resultado de muito trabalho, muito esforço, mas é um esforço
compensado.
O que é que lhe dá motivação para
continuar?
Sem dúvida o gosto pelos animais.
Temos de gostar daquilo que fazemos, e eu gosto do que faço. Gosto
dos animais, de falar com os produtores acerca do que pode ser feito.
Queremos sempre mais, mas vamos trabalhando com o que temos e
seguindo. O caminho faz-se caminhando.
Que planos tem para o futuro?
Temos a intenção de juntar mais
pessoas, tanto nas ilhas em que já temos sócios como nas outras, e
entender quais os seus problemas. Queremos estar representados em
todas as ilhas dos Açores. A certificação IGP para o borrego da
ilha de Santa Maria é também uma aposta nossa, que tenho confiança
que conseguiremos alcançar. Isso não impede que, mais tarde, não
se tenha um borrego IGP também nas outras ilhas. Cada ilha tem de
ter sempre a sua própria certificação porque a carne é diferente
de uma para a outra, já que as condições em que os animais são
criados acabam por variar, desde a erva que consomem ao clima a que
estão sujeitos. Agora as coisas estão a fluir, queremos também
consolidar a queijaria, que tem sido um sucesso. Vamos, com certeza,
continuar a trabalhar para o desenvolvimento da ovinocultura e
caprinicultura nos Açores.