Angra do Heroísmo nos Açores tem um novo festival de literatura e história
Hoje 16:06
— Lusa/AO Online
“Nós
tínhamos há muito tempo a intenção de criar na órbita da livraria um
festival cultural, literário, que nos permitisse trazer intérpretes,
nacionais e internacionais, e dar esse contributo também para o
acréscimo de mundividência de Angra, prestando uma homenagem à dimensão
literária e também à dimensão histórica de Angra”, afirmou, na
apresentação do festival, o escritor Joel Neto, presidente da associação
e proprietário da livraria Lar Doce Livro.A
associação, criada por clientes, amigos e funcionários da livraria,
situada no centro histórico de Angra do Heroísmo, surge com o objetivo
de organizar o festival, que será dividido em três momentos: uma
temporada, uma residência e um festival propriamente dito.Este
ano, excecionalmente, a residência arranca em primeiro lugar com a
historiadora e professora da Universidade Nova de Lisboa Raquel Varela,
que estará na ilha Terceira até 18 de fevereiro.No
final de março, segue-se a temporada, que ainda não tem programa
fechado, mas deverá iniciar-se com a “audição integral em duas noites
consecutivas da reportagem em direto de Arlindo Gomes na madrugada de 25
de abril de 1964”, com a presença do jornalista.“Será
um momento muito importante, porque nós queremos que este festival,
neste primeiro ano, decorra entre três parâmetros: os 50 anos de abril,
os 50 anos de autonomia e os 600 anos dos Açores”, salientou Joel Neto.O festival propriamente dito deverá ocorrer, durante 10 dias, entre o final de novembro e o início de dezembro.“Vamos
seguramente ter escritores nacionais e internacionais presentes, que
são evidentemente o prato forte deste acontecimento, mas vamos também
ter muitos escritores locais”, apontou o presidente da associação.A
dimensão do festival está ainda dependente do financiamento, que para
já conta apenas com o patrocínio do município de Angra do Heroísmo e com
as parcerias da Lar Doce Livro e do Azores Book Hotel.“Ainda
não temos a certeza da escala que ele vai poder atingir porque, como se
sabe, as verbas do RJAC [Regime Jurídico de Apoios a Atividades
Culturais atribuído pelo Governo Regional dos Açores] estão ainda por
atribuir e há mais um ou dois pedidos de financiamento cuja resposta
ainda estamos à espera”, apontou Joel Neto.Há,
no entanto, intenção de trazer também narradores orais, nacionais e
internacionais, e de assinar protocolos em torno da figura de Fernando
Pessoa e das leituras públicas que ocorrem na cidade.“Angra
do Heroísmo é, provavelmente, a cidade do país com mais leituras
públicas, em geral, e, do ponto de vista per capita, a uma escala
completamente incomparável (...) Vamos federá-las e vamos reclamar para
Angra a marca de Cidade da Leitura em Voz Alta”, revelou o escritor.Para
além da história e da literatura, o festival pretende ainda incluir
outras atividades artísticas, como música, pintura, teatro, artesanato,
entre outras.O vice-presidente da Câmara
Municipal de Angra do Heroísmo (PS), Guido Teles, defendeu que a cidade
merece este festival, mas alertou que o município não tem um orçamento
que permita suportar todos os eventos que a cidade merece."A
câmara tem sentido a necessidade de reforçar os apoios, porque
infelizmente da parte do Governo Regional (PSD/CDS/PPM) tem havido uma
retração dos apoios", acusou.A
historiadora Raquel Varela desloca-se à Terceira para conhecer as danças
e bailinhos de Carnaval tradicionais da ilha e colaborar na reflexão
sobre se as manifestações devem ser classificadas como Património
Imaterial da Humanidade.“É um caso único no país e muito raro na Europa”, admitiu, na apresentação do festival.Até 18 de março, Raquel Varela participa ainda em outros debates e em palestras para alunos sobre ‘fake news’ e desinformação.“Nós
temos de ser capazes de ensinar o conhecimento às crianças e aos jovens
para eles próprios identificarem a construção da notícia, conhecerem,
ousarem pensar por si”, defendeu.A
historiadora associa o crescimento da desinformação à degradação das
condições de trabalho de jornalistas e professores e à degradação da
independência pública das universidades.“As
‘fake news’ entram num terreno fácil, porque a nossa esfera pública no
campo do jornalismo e da educação já era uma esfera pública muito
fragilizada”, justificou.Para Raquel
Varela, Portugal vive uma situação “muito perigosa”, com a “ascensão de
um partido fascista, com representação parlamentar, que é, de facto, uma
ameaça à democracia”, mas há outras ameaças, como a incapacidade do
Estado de “socorrer as populações”.“[É
preciso] voltar a dar meios às pessoas, que a democracia não seja um
voto na lapela de quatro em quatro anos, mas que seja uma prática
diária. Essa prática diária também tem de ser uma prática cultural. Não
pode haver dissociação. A cultura não pode ser aquela coisa que nós
fazemos ao final do dia quando sobra meia hora. Cultura e trabalho são
indissociáveis da nossa vida”, vincou.