Angra como “capital universal do culto do Espírito Santo”
Hoje 11:40
— Daniela Arruda
É a essa
questão e a tantas outras que o arquiteto e historiador João Campos
procura responder no livro Ilha Terceira - Arquitectura dos Impérios do
Espírito Santo, depois de décadas dedicadas à investigação sobre um
património que, para si, considera único.Para começar, influências vindas do OrienteUm
dos pontos apresentados pelo autor tem a ver com a influência que os
contactos entre Portugal e o Oriente tiveram na forma como os impérios
foram concebidos.João Campos explica que a exuberância das formas, a
riqueza da decoração e o uso de cores aparecem na arquitetura
portuguesa depois dos contactos marítimos com os territórios orientais. E
essas influências acabaram por se estender aos impérios do Espírito
Santo.No entanto, essa relação só diz respeito à arquitetura, não ao culto religioso em si.Angra será mesmo a capital dos impérios?O
culto do Espírito Santo acontece desde o século XII e teve uma presença
muito grande em várias regiões da Europa e também de Portugal
continental, mas os impérios enquanto material, enquanto edifícios
próprios para este culto, nasceram apenas nos Açores.Para o
investigador, isso é resultado da história do arquipélago: pelas
populações que chegavam de vários lugares e pelas influências culturais e
religiosas que dessas ligações advinham. João Campos sublinha que “é
uma criação exclusivamente açoriana”.No levantamento que foi feito
para o livro, o investigador inventariou 72 impérios na ilha Terceira.
Este número, segundo João Campos, representa praticamente metade dos
impérios que existem, inclusive os que estão construídos fora dos
Açores.Para o historiador, a concentração única deste património em
Angra do Heroísmo dá à cidade um papel central na preservação desta
herança cultural. Por isso, João Campos dá uso à sua “liberdade” e
atribui à cidade um título simbólico: o de “capital universal do culto
ao Espírito Santo” no século XXI. O investigador explica que considera
adequada esta designação para um lugar que reúne uma grande parte dos
impérios que hoje existem. Só na cidade de Angra do Heroísmo
registou 49 impérios, o que, para o investigador, torna-a numa
referência no que à preservação desta tradição diz respeito.Nenhum é igual ao outroTodos são reconhecíveis, olha-se e sabe-se que é um império, mas conseguem ser diversos naquilo que têm em comum. Há
aqueles que são mais elaborados, outros que são mais modestos; há
também os que têm cores mais discretas e outros pintados de cores vivas.
E, por isso, João Campos considera esse aspeto extraordinário: “Há uma
coisa excecional nos impérios, nenhum é igual ao outro”.É a individualidade dentro de uma identidade comum que torna este património tão especial.“A memória é o ADN do património”A
conservação dos impérios é incontornável e o autor reconhece que o
património evolui. Mas quer lembrar que algumas intervenções ou
“ajustes” podem descaracterizar os edifícios.E para João Campos, o
mais importante é garantir que a memória associada a estas construções
não se perca: “A memória é o ADN do património”.Como exemplo dá o
uso de vernizes e de novos produtos de conservação que alteram a imagem
tradicional destas construções. Segundo o investigador, o que distingue
os impérios é a riqueza das cores, que ao longo dos anos vão sendo
renovadas pelas irmandades. Estas pinturas além de “encherem as
vistas”, servem também para proteger a pedra da humidade e das condições
do clima atlântico, de modo a evitar a degradação da construção. E a
este ponto acrescenta-se outra curiosidade, uma vez que o investigador
conta que no Oriente muitos edifícios religiosos também são pintados e
repintados para combater as consequências da humidade.Contudo, o historiador reconhece que se a mudança faz parte da evolução, ainda assim a identidade deve ser preservada.Um património para o futuroDepois
de 30 anos de investigação e de questionamentos, João Campos ainda tem
dificuldade em definir o que é um império, mas tem a certeza de que são
mais do que pequenas construções religiosas. São símbolos da comunidade,
de partilha e de uma tradição que continua viva nas festas, nos bodos e
na vida das freguesias.“O império é uma forma de manifestar a vitalidade da cultura própria de uma comunidade”, acrescenta. Com
este livro, João Campos quer deixar registada a arquitetura dos
impérios, bem como o significado cultural e espiritual que lhes deu
origem e que continua a dar-lhes vida. Pois, mesmo que o tempo traga
mudanças, o importante é que se preserve o conhecimento sobre aquilo que
os impérios foram, representam e continuam a significar para os Açores.A
influência dos impérios atravessou também o Atlântico. Na ilha de Santa
Catarina, no sul do Brasil, os açorianos levaram consigo o culto do
Espírito Santo e a tradição de construir impérios, mas aconteceu o
inevitável, a evolução e transformação da tradição.