Angola escolheu um caminho em que "todos vão ficar a perder"
Luanda Leaks
20 de jan. de 2020, 12:02
— Lusa/AO Online
Numa entrevista ao programa
Panorama, da estação pública de televisão britânica BBC, que será
divulgado hoje às 19:30 de Lisboa, Isabel dos Santos argumentou que "as
autoridades angolanas embarcaram numa caça às bruxas muito, muito
seletiva, que serve o propósito de dizer que há duas ou três pessoas
relacionadas com a família dos Santos".De
seguida, no excerto que foi disponibilizado antes da transmissão da
entrevista, Isabel dos Santos afirma: "Lamento que Angola tenha
escolhido este caminho, penso que todos temos muito a perder".A
empresária argumenta que as empresas que lançou nos últimos 20 anos são
competentes e geridas por bons profissionais, e rejeita a ideia de que o
facto de ser filha do antigo Presidente de Angola é sinónimo de culpa."Olhando
para o meu histórico, vê o trabalho que fiz e as empresas que construí,
são certamente empresas comerciais", afirmou, acrescentando: "Há alguma
coisa de errado numa pessoa angolana ter um negócio com uma companhia
estatal? Penso que não há nada de errado, tem de perceber que não se
pode dizer que por uma pessoa ser filho de alguém é imediatamente
culpada, e é por isso que há muito preconceito", afirmou a empresária.Questionada
pelo entrevistador sobre se o facto de ser filha do José Eduardo dos
Santos não deve obrigar a mais cuidado nos negócios, Isabel dos Santos
respondeu: "absolutamente"."Todos os meus
negócios têm conselhos de administração extremamente bons, temos os
melhores CEO [presidente executivo), os melhores COO [diretor
financeiro], os melhores departamentos legais, e as pessoas são
profissionais experientes, que trabalharam noutras empresas, e somos
muito competentes", concluiu.A divulgação
da entrevista surge no dia seguinte a um grupo de jornalistas de
investigação ter revelado mais de 715 mil ficheiros, sob o nome de
"Luanda Leaks", que detalham esquemas financeiros de Isabel dos Santos e
do marido, Sindika Dokolo, que estarão na origem da fortuna da família.O
Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ), que
integra vários órgãos de comunicação social, entre os quais os
portugueses Expresso e SIC, analisou, ao longo de vários meses, 356
gigabytes de dados relativos aos negócios de Isabel dos Santos entre
1980 e 2018, que ajudam a reconstruir o caminho que levou a filha do
ex-presidente angolano a tornar-se a mulher mais rica de África.Durante
a investigação, foram identificadas mais de 400 empresas (e respetivas
subsidiárias) a que Isabel dos Santos esteve ligada nas últimas três
décadas, incluindo 155 sociedades portuguesas e 99 angolanas.As
informações recolhidas detalham, por exemplo, um esquema de ocultação
montado por Isabel dos Santos na petrolífera estatal angolana Sonangol,
que lhe permitiu desviar mais de 100 milhões de dólares (90 milhões de
euros) para o Dubai.Revelam ainda que, em
menos de 24 horas, a conta da Sonangol no Eurobic Lisboa, banco de que
Isabel dos Santos é a principal acionista, foi esvaziada e ficou com
saldo negativo no dia seguinte à demissão da empresária.