Analistas consideram que Estado devia ir mais longe no apoio às empresas

Crise

13 de out. de 2008, 01:28 — Lusa/AO online

Eduardo Catroga e Luís Mira Amaral, dois ex-ministros social-democratas ouvidos pela Lusa, defendem que a mais imediata medida de apoio às pequenas e médias empresas, aquelas que terão mais dificuldade em obter financiamento bancário, seria a liquidação das dívidas do Estado aos fornecedores. "O pagamento aos fornecedores [do Estado] seria uma injecção de liquidez" nas empresas, afirmou à Lusa Mira Amaral. Eduardo Catroga avalia em 2.500 milhões de euros essas dívidas a "injectar" e defende também que, em segundo lugar, seria importante na actual conjuntura "acabar com o abuso de poder na política fiscal" que configuram os pagamentos especiais por conta, além de alargar o prazo de entrega do IVA. Sobre as medidas já anunciadas pelo governo, nomeadamente os incentivos fiscais em sede de IRC, Catroga afirma que a sua abrangência é reduzida porque o imposto "só é pago em 2009" e parte muito significativa das pequenas e médias empresas abrangidas nem sequer apresenta lucros, portanto não beneficiará do abatimento da taxa.  "As empresas precisam agora de ver diminuídas a pressão sobre a sua tesouraria", afirma o ex-ministro das Finanças social-democrata. Para Mira Amaral, o plano britânico para combate à crise, que prevê a entrada do Estado como accionista da banca, "deve ser uma referência" ao nível europeu e "pode fazer sentido em Portugal", ao contrário do norte-americano, o chamado Plano Paulson, cujo cerne é a compra de activos de risco elevado pelo Tesouro. "Se bem que o governo de certa maneira já fez [nacionalizações de capital] ao pôr a Caixa Geral de Depósitos a entrar no capital do Millennium Bcp", ironiza Mira Amaral. O Governo vai prestar garantias de 20 mil milhões de euros às operações de financiamento dos bancos que estão em Portugal para melhorar o acesso à liquidez, anunciou hoje o ministro das Finanças. O executivo decidiu “lançar a iniciativa de prestar uma garantia às operações de financiamento que doravante sejam levadas a cabo pelas instituições de crédito em Portugal”, disse o ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos. Para Paulo Teixeira Pinto, se esta medida tiver efeito positivo, "pode não faltar nada" para que o mercado de crédito interbancário volte a funcionar normalmente, fluindo o crédito à economia e o investimento.  "Vamos ver qual é a reacção dos mercados", que estão "caprichosos", salienta Teixeira Pinto. "Estou confiante que se acabará por ultrapassar esta crise, mas vai deixar marcas profundas", adianta. Para o banqueiro Alípio Dias, até há pouco tempo administrador do Millennium Bcp, depois da passagem da "tempestade" sobre o sector financeiro, será preciso "reflectir sobre o sistema". Em particular, questiona as disposições legais que permitem que mais-valias potenciais apareçam nas demonstrações de resultados como ganhos efectivos, e também o momento de introdução de "Basileia II", novas normas de alocação de capital ao risco operacional.