ANAC rejeitou todas as recomendações de segurança do GPIAAF até ao momento
25 de jan. de 2023, 16:42
— Lusa
“Na
aviação temos 0% de taxa de aceitação nas recomendações feitas à ANAC,
na NAV temos umas aceites outras não”, afirmou o responsável, em audição
na Assembleia da República, sobre o relatório que apontou “falhas
graves” no controlo aéreo, por requerimentos do PSD, do Chega e do PCP.Nelson
Oliveira respondia a questões do deputado comunista Bruno Dias, sobre a
taxa de aceitação das recomendações emitidas por aquele gabinete,
quando realçou que “as organizações estão no seu direito de não aceitar
as recomendações”.O diretor do GPIAAF explicou também que “não existe consequência nenhuma” da rejeição das recomendações.“Se
entende não a seguir, está no seu direito, mas depois tem também de
arcar com as consequências quando houver um acidente que poderia ter
sido evitado se tivesse acomodado aquelas recomendações”, apontou o
responsável.Relativamente ao relatório que
refere falhas graves no controlo de tráfego aéreo nos aeroportos do
Porto e de Ponta Delgada, que autorizaram descolagens e aterragens
quando ainda se encontravam viaturas a realizar inspeção ou manutenção
da pista, a que a Lusa teve acesso em 29 de dezembro, foram emitidas
cinco recomendações de segurança à NAV Portugal, responsável pela gestão
do espaço aéreo nacional, três à ANAC, regulador do setor, e duas à ANA
Aeroportos de Portugal.Aquelas entidades,
explicou o GPIAAF, têm 90 dias para após emitidas as recomendações para
comunicar se as pretendem ou não aceitar, total ou parcialmente, e,
caso entendam, apresentar um plano de implementação das mesmas.Segundo
aquele gabinete, “existe uma intenção da NAV de avançar com um conjunto
de ações”, já expressa no relatório conhecido em dezembro.Já
no que diz respeito à ferrovia, o GPIAAF falou de uma aceitação de 100%
das 78 recomendações de segurança emitidas desde 2017, “um ‘recorde’
invejável em toda a Europa”.Já sobre as
conclusões do relatório, o chefe de equipa multidisciplinar de aviação
civil do GPIAFF, José Figueiredo, explicou que “é possível estar só uma
pessoa” na torre de controlo aéreo, por exemplo em períodos noturnos,
mas com meios tecnológicos que garantam o cumprimento das funções de
forma segura.“Neste caso em concreto, não era o que estava planeado nem o que estava previsto”, vincou.Antes,
em resposta à deputada do Chega Rita Matias, Nelson Oliveira tinha já
admitido que, “se calhar, não tem de estar mas do que uma pessoa na
torre”, se estiverem implementados sistemas que garantam a segurança.“Não
estavam definidos na organização quais os critérios pelos quais se
podia passar da lotação nominal de quatro para a real de um [controlador
aéreo]. Não dizemos que têm de estar quatro, ou um. O que dizemos é que
não existia um critério devidamente estudado que definisse quando é que
isso podia acontecer”, explicou o diretor do GPIAAF.O
primeiro incidente investigado pelo GPIAAF aconteceu na noite de 27 de
abril de 2021, quando um Boeing 737-400, de carga, operado pela ASL
Airlines Belgium, iniciou a descolagem no aeroporto do Porto, no momento
em que um veículo 'follow-me', “devidamente autorizado a realizar a
inspeção da pista, apercebeu-se de uma luz brilhante e questionou a
torre sobre a presença de alguma aeronave a alinhar na pista”.Um
“evento semelhante” ocorreu no aeroporto de Ponta Delgada em 13 de maio
deste ano, que "resultou no borrego” (abortar uma aterragem) de um A321
da TAP, quando a tripulação se apercebeu “nos últimos instantes da
presença de uma carrinha de manutenção na pista, também esta previamente
autorizada” pelo Controlo de Tráfego Aéreo.Os
investigadores identificaram “deficiências ao nível da gestão do
pessoal e dos turnos de trabalho, que criaram condições organizacionais
latentes contribuintes para os eventos”.O
GPIAAF concluiu que houve a “prática sistémica” de manipulação dos
registos das presenças de controladores na torre dos dois aeroportos,
assim como “arranjos de conveniência para os envolvidos”, incluindo
“supervisores e chefe de torre” de controlo, alertando para os riscos
que esta situação acarreta a vários níveis, nomeadamente na fadiga e nos
tempos de descanso.Quanto ao aeroporto do
Porto, o GPIAAF constatou que, aquando do incidente, o “controlador de
serviço trabalhava sozinho e ininterruptamente sem qualquer descanso,
durante cerca de quatro horas, atuando como controlador de aeródromo e
de aproximação”.Este organismo afirma
também que a ANAC, enquanto regulador, não detetou “as deficiências na
organização e sistema de gestão” da NAV Portugal, na implementação de
requisitos emanados pela União Europeia.