Amnistia retira prémio a Aung San Suu Kyi por trair valores que já representou
12 de nov. de 2018, 17:40
— Lusa/AO online
A
Amnistia declara-se “profundamente consternada” por Aung San Suu Kyi já
não ser “um símbolo de esperança, coragem e defesa eterna dos direitos
humanos” e face à sua “vergonhosa traição” considera que não pode
justificar a conservação do prémio.Num
comunicado, a organização de defesa dos direitos humanos indica que o
seu secretário-geral, Kumi Naidoo, escreveu no domingo à líder
birmanesa, prémio Nobel da Paz 1991, para a informar “com grande
tristeza” que lhe ia retirar o prémio, atribuído em 2009.“Como
Embaixadora da Consciência da Amnistia Internacional a nossa
expectativa era que continuasse a utilizar a sua autoridade moral para
falar contra a injustiça sempre que se deparasse com ela, em particular
em Myanmar”, escreveu Naidoo.A
Amnistia Internacional (AI) assinala que desde que Aung San Suu Kyi se
tornou líder de facto do governo de Myanmar, em abril de 2016, “a sua
administração tem estado ativamente envolvida (…) em múltiplas violações
dos direitos humanos”.Recorda
ainda ter “criticado repetidamente” a responsável e o seu governo por
“não falarem sobre as atrocidades militares contra a população rohingya
(minoria muçulmana) do Estado de Rakhine, que viveu durante anos sob um
sistema de segregação e discriminação semelhante ao ‘apartheid’”.E
precisa que, durante a onda de repressão iniciada em agosto de 2017,
“as forças de segurança de Myanmar mataram milhares, violaram mulheres e
raparigas, detiveram e torturaram homens e rapazes e incendiaram
centenas de habitações e aldeias”.Mais de 720.000 rohingyas birmaneses fugiram para o vizinho Bangladesh desde aquela altura.“Um
relatório da ONU pediu que altos responsáveis militares fossem
investigados e processados pelo crime de genocídio”, recorda a AI.A
organização reconhece que “o governo civil não controla os militares”,
mas considera que Aung San Suu Kyi e o seu gabinete têm “protegido as
forças de segurança” da prestação de contas “rejeitando, minimizando ou
negando alegações de violações e dificultando investigações
internacionais sobre abusos”.Acusa
ainda o governo birmanês de “ter ativamente instigado hostilidade
contra os rohingyas” classificando-os de terroristas, acusando-os de
queimarem as próprias casas e de mentirem sobre violações.“O
fracasso de Aung San Suu Kyi em falar pelos rohingyas é uma das razões
pelas quais já não podemos justificar o seu estatuto como Embaixadora da
Consciência”, disse Kumi Naidoo.“A
sua negação da gravidade e escala das atrocidades significa que há
poucas perspetivas da melhoria da situação”, salienta a AI.Aung
San Suu Kyi também tem falhado em relação à situação nos Estados de
Kachin e Shan (ambos no norte do país), não usando “a sua influência e
autoridade moral para condenar os abusos militares”, para pressionar no
sentido de uma responsabilização ou “para falar pelos civis das minorias
étnicas que sofrem o peso dos conflitos”, considera.A
organização acrescenta que a líder birmanesa tem falhado mesmo nas
áreas onde o governo civil “tem considerável autoridade para fazer
reformas para melhor proteger os direitos humanos”, como as relacionadas
com a liberdade de expressão, associação e reunião.“Nos
dois anos desde que a administração de Aung San Suu Kyi assumiu o
poder, defensores dos direitos humanos, ativistas pacíficos e
jornalistas têm sido detidos e outros enfrentam ameaças e são
hostilizados e intimidados devido ao seu trabalho”, assinala a AI.A
organização recorda que quando Aung San Suu Kyi pode receber o
galardão, em 2013, lhe pediu para continuar a olhar para e pelo seu país
e para o ajudar a ser a nação “onde a esperança e a história se
fundem”.“A
Amnistia Internacional levou o pedido de Aung San Suu Kyi muito a sério e
é por isso que nunca ignorará as violações dos direitos humanos em
Myanmar”, disse Kumi Naidoo, adiantando que a organização continuará a
lutar pela justiça e direitos humanos no país “com ou sem” o apoio de
Suu Kyi.A
atuação de Aung San Suu Kyi em relação à perseguição dos rohingyas levou
a que no último ano lhe tenham sido retirados vários prémios, como o
Elie Wiesel do Museu do Holocausto dos Estados Unidos ou o da Liberdade
de Edimburgo concedido pela cidade escocesa.