Amnistia insta Portugal a rever lei sobre manifestação e a responsabilizar polícia
9 de jul. de 2024, 10:58
— Lusa/AO Online
O caso a que se refere a Amnistia foi publicado pela Inspeção-Geral da
Administração Interna na página de internet e implicou revistas a
ativistas da Climáximo, em 2021, precisou à agência Lusa fonte da
organização de defesa dos direitos humanos.
Portugal está entre os países analisados pela Amnistia, num relatório
europeu, onde se verificaram incidentes de uso da força “equiparáveis a
tortura ou a outros tratamentos cruéis”, nomeadamente quando os agentes
da polícia espancaram ou pontapearam manifestantes que já se encontravam
deitados no chão e/ou não ofereciam resistência.
“Os agentes de segurança pública dispersaram reuniões, quer em casos
nos quais a dispersão não era legal, quer em casos nos quais a mesma era
legítima, mas os meios empregues para o efeito, incluindo o uso da
força, foram desnecessários e/ou desproporcionais”, acrescentou a AI no
documento, que é hoje apresentado em Lisboa e que contém dados sobre 21
países. Situações de uso excessivo de
força por parte das forças de segurança na dispersão de manifestantes
foram registadas pela AI a dia 21 de janeiro de 2019, na Avenida da
Liberdade (protesto contra a atuação da PSP no Bairro da Jamaica) e a 03
de fevereiro de 2024, na Praça do Município, em Lisboa
(contramanifestação espontânea em resposta a um protesto da
extrema-direita). Segundo Inês Subtil, coordenadora da AI, a polícia agiu “com violência, sem aviso prévio”.
De acordo com a mesma fonte, há “uma enorme dificuldade” em identificar
cadeias de comando: “O que vemos é uma ausência de responsabilização
dos agentes e isso é perigoso, porque deixa espaço para tudo”.
De acordo com a Amnistia, em nenhum dos países examinados os
observadores de manifestações e concentrações se encontram legalmente
protegidos, e, em vários, a ausência de diretrizes claras significa que o
tratamento dado aos observadores e aos jornalistas é deixado ao
critério pessoal dos agentes da polícia. “Foram registados casos de
tratamento problemático, por parte dos agentes de segurança pública, de
observadores ou monitores de manifestações, bem como de jornalistas, na
Alemanha, na Áustria, na Finlândia, na Grécia, em Portugal e na Suíça”,
lê-se no relatório. Em Portugal, a equipa
da AI identificou sete “preocupações-chave” e emitiu um conjunto de
recomendações que passam pela necessidade de alterar legislação sobre o
direito de reunião pacífica, de eliminar restrições às ações e punições
aos manifestantes, mas também pela responsabilização e formação da
polícia. “A Amnistia Internacional
identificou casos em que os ativistas foram acusados e punidos pelo
crime de desobediência por falhas na notificação de protestos, tendo
sido sujeitos a penas suspensas convertidas no pagamento de multas”,
exemplificou a estrutura. Nas
recomendações que emitiu, a AI sugeriu alterações legislativas para que
os organizadores de manifestações pacíficas não estejam sujeitos a
sanções por não terem notificado as autoridades.
A AI pretende garantir que os requisitos para a organização de uma
manifestação sejam tratados “apenas como um aviso” sobre a intenção de
realizar um protesto e não como “um pedido de autorização”. Para a Amnistia, o direito de manifestação em 21 países europeus está pouco protegido e “demasiado restringido”.