Álvaro Siza acredita que “o Homem encontrará a vacina para qualquer crise”
30 de out. de 2020, 18:56
— Lusa/AO Online
Álvaro Siza foi o
primeiro arquiteto não espanhol a receber o Prémio Nacional de
Arquitetura, atribuído anualmente pelo Governo de Espanha desde 1932.“Acredito
que as maiores dificuldades estão na origem das maiores descobertas.
Alguém me disse que a palavra crise em grego significa também
recomposição, mudança, é nisso que acredito. O Homem encontrará a vacina
para qualquer crise, como acontece há séculos”, afirmou o arquiteto
português, em videoconferência a partir do Porto, durante a cerimónia,
que decorreu em Espanha e foi transmitida ‘online’.A
decisão de atribuir o prémio a Álvaro Siza Vieira, anunciada há quase
um ano, foi tomada durante o II Congresso Internacional “Arte, Cidade e
Paisagem”, que decorreu em Cuenca (Espanha), e teve Portugal como país
convidado.Foi “com muita emoção” que
Álvaro Siza agradeceu o prémio, que considerou ser “mais um sinal do
reconhecimento” que deve a Espanha. “Das muitas oportunidades de
trabalho e convivência que desde cedo estiveram presentes no meu
percurso profissional e pessoal”, referiu.O
arquiteto recordou os encontros de arquitetura em que participou em
Espanha, na década de 1970, “nos quais se reuniam periodicamente
arquitetos das diversas regiões do país” e onde conheceu “grandes amigos
e arquitetos, uma geração que lutava pela transformação da condição e
sentido do seu trabalho, pela universalidade e contemporaneidade, em
oposição ao nacionalismo”.Nesses
encontros, contou, o que se fazia “era simples”. “Cada um apresentava um
ou vários projetos, abrindo um debate em que se confrontavam diferentes
ideias à procura de um rumo, em que história, identidade e resposta às
exigências de um mundo em mudança profunda estivessem presentes em
complementaridade. Um debate clarificador da necessidade e poder
transformador da arquitetura e das competências do arquiteto”,
partilhou.Nos encontros, de uma geração
que “esperava uma mudança”, marcavam presença “arquitetos de todas as
regiões de Espanha e algum estrangeiro convidado”.A
década de 1970, com a queda das ditaduras de Franco e Salazar,
“trouxeram essa mudança, tanto em Espanha como em Portugal, e o mundo
continua a mudar”.Para Álvaro Siza Vieira
“é necessário manter a abertura e entusiasmo de então”: “lutar pelo
serviço prestado e generalizado a todos os cidadãos, que é a razão de
ser da arquitetura, a essência da arquitetura, como de qualquer forma de
arte”.“Para isso se prepara ou está
preparada uma nova geração. Não sei se será ainda mais difícil do que é
hoje para a geração a que pertenço, ou mais alcançável”, afirmou.Na
cerimónia de entrega do prémio a Álvaro Siza marcaram presença os dois
chefes de Governo de Portugal e Espanha, António Costa e Pedro Sanchez,
respetivamente.António Costa, em
videoconferência a partir de Lisboa, salientou que, “não sendo a
primeira vez que Álvaro Siza vieira é distinguido por Espanha com um
importante prémio”, esta distinção tem um “significado especial”, visto
ser a primeira vez que é atribuída a um arquiteto não espanhol.O
primeiro-ministro português salientou que a arquitetura de Siza “não é
regionalista, como em certa altura a crítica anglo-saxónica a tentou
categorizar, mas sim universalista, aberta ao mundo, como o melhor a
cultura portuguesa, de que Fernando Pessoa, José Saramago ou Manoel de
Oliveira são outros exemplos”.Já Pedro
Sanchez, que participou presencialmente na cerimónia, fez uma associação
entre o trabalho de Siza Vieira, no qual “com frequência as suas obras
aparecem em continuidade com a paisagem envolvente, em respeito pelo
meio ambiente” e têm também “capacidade de melhorar o bem-estar das
pessoas”, e a realidade que a pandemia da covid-19 colocou a nu.“A
pandemia fez-nos questionar muitas coisas: forma de viver, de
trabalhar, de nos relacionarmos do ponto de vista social. Está nas mãos
dos arquitetos fazer propostas que mudem a maneira como vivemos. Os
arquitetos devem ter um papel fundamental nesta transformação”, afirmou.
Pedro Sanchez salientou que Álvaro Siza “esteve sempre em sintonia com
valores como o reequilíbrio social”, e que Espanha “tem muito a
agradecer-lhe”, visto que “influenciou tantos arquitetos espanhóis que
participam neste processo de transformação social” que se está a viver.Álvaro
Siza Vieira nasceu em Matosinhos, em 1933, e estudou Arquitetura na
Escola Superior de Belas Artes do Porto, entre 1949 e 1955.Em
Espanha construiu, entre muitos outros edifícios, o Centro
Meteorológico da Villa Olímpica de Barcelona, as casas de habitação
social de Cádis, a Faculdade de Ciências da Informação de Santiago de
Compostela, a Reitoria da Universidade de Alicante ou o edifício Zaida
de Granada. É autor de inúmeros outros
projetos, entre os quais se destacam, em Portugal, as vivendas no Bairro
da Malagueira em Évora, a Faculdade de Arquitetura da Universidade do
Porto, o Centro Paroquial de Marco de Canavezes, o Pavilhão de Portugal
da Expo'98 em Lisboa, o Pavilhão de Portugal da Expo'2000 em Hannover
(com Souto de Moura) e o Museu de Arte Contemporânea de Nápoles.Da
sua grande lista de distinções destaca-se o Prémio de Arquitetura da
Associação Internacional de Críticos de Arte (1982), o Prémio de
Arquitetura da Associação dos Arquitetos Portugueses (1987), a Medalha
de Ouro de Arquitetura do Conselho Superior dos Colégios de Arquitetos
de Espanha (1988), o Prémio Mies van der Rohe (1988) e o Prémio Pritzker
(1992).