Alterações climáticas não têm impacto dramático nos Açores, mas obrigam a adaptação
21 de nov. de 2019, 10:28
— Lusa/AO Online
“Naturalmente,
a alteração climática está a acontecer também nos Açores, mas temos uma
margem de manobra e uma margem de conforto muito razoável, que nos
permite enfrentar este problema global de uma forma mais tranquila e
eficaz em relação às medidas a tomar, quer na mitigação, quer na
adaptação”, adiantou, em declarações aos jornalistas, na Praia da
Vitória, à margem do XII Congresso da Agricultura dos Açores.Segundo
Brito de Azevedo, que é coordenador do Grupo de Estudos do Clima e
Mudanças Globais da Universidade dos Açores, o anticiclone dos Açores
está a deslocar-se para norte, o que tem tornado o clima do arquipélago
mais irregular. Os fenómenos extremos no
arquipélago, como o recente furacão “Lorenzo”, são mais frequentes e com
maior intensidade, as temperaturas aumentam cerca de 0,33 graus a cada
10 anos e a precipitação está a diminuir nas zonas mais baixas. Ainda
assim, frisou, a situação não tem “efeitos tão dramáticos como noutras
regiões geográficas que estão a enfrentar problemas muito graves”. “O
nosso clima não vai mudar tanto como à mesma latitude nas regiões
continentais. O efeito de termorregulação do oceano permite-nos ter uma
amenidade climática que nos garante algum conforto”, salientou.A
irregularidade climática é, na opinião de Eduardo Brito de Azevedo, a
principal dificuldade colocada à agricultura nos Açores, mas pode ser
combatida com melhor informação e com o contributo da ciência. “Há
alternativas quer a nível das culturas, quer a nível da adaptação dos
animais a climas diferentes e no caso concreto dos Açores o clima não
será excecionalmente diferente do que é agora. Vai ser mais seco, vamos
ter temperaturas mais altas, mas há alternativas no domínio das
variedades de culturas que existem para adaptar a atividade às novas
circunstâncias”, salientou. Apesar de
admitir que o setor agrícola também tem de contribuir para a redução de
emissões de gases com efeitos estufa, o investigador considerou que não é
possível comparar o impacto da atividade agrícola com o da utilização
de combustíveis fósseis. “Como é que se
pode comparar a emissão de uma indústria que retira carbono fóssil e o
coloca na atmosfera com uma indústria que retira carbono da atmosfera e o
volta injetar?”, questionou. “Ninguém
está a pôr em causa que a agricultura não tem pegada ecológica, tem
muita, sobretudo na parte da pressão sobre os ecossistemas, agora temos
de usar argumentos, em termos de opinião pública, que sejam
comparáveis”, acrescentou. Também presente
no encontro, Paulo Canaveira, da Agência Portuguesa do Ambiente, disse
que “não é possível reduzir as emissões [de dióxido de carbono] para
zero, mas é possível reduzir significativamente as emissões da
agricultura”. A missão, sublinhou, “não é fácil”, no entanto, já existe “muita investigação”, por exemplo, sobre a alimentação dos bovinos. “É
possível ter fertilizações mais eficientes e com isso reduzir emissões
relacionadas com o uso de adubos e de fertilizantes. Na área dos animais
é possível manipular a alimentação que os animais utilizam para se
tornar mais eficiente. É possível trabalhar o melhoramento genético dos
próprios animais que utilizamos na agricultura”, apontou.Entre
as várias opções em estudo está a possibilidade de se introduzirem
melhorias na composição das pastagens, garantindo uma erva que seja
digerida com mais eficiência, e a criação de suplementos alimentares às
rações. “Uma das que está a dar resultados
promissores, mas que ainda não está propriamente disponível
comercialmente, tem a ver com a adição de algas às rações que damos aos
animais e, em particular, no caso das vacas já se conseguiram resultados
muito encorajadores. Claro que agora é preciso perceber qual é o efeito
que isto tem na própria saúde dos animais, se é possível produzir
aquelas algas em quantidade suficiente para alimentar os animais”,
sustentou o investigador.Segundo Paulo
Canaveira, a população mundial está a crescer e o consumo de carne
“continua a subir”, por isso, terá de haver “algum ajuste nas dietas”,
mas isso “não passa necessariamente pelo vegetarianismo”. “Teremos
de favorecer os sistemas mais eficientes e com menos emissões e tentar
reduzir a expressão dos mais poluentes”, salientou, alegando que “não é
igual produzir bovinos estabulados na Alemanha ou produzir bovinos em
pastagem nos Açores”.