Alterações climáticas ameaçam o mar profundo do Atlântico Norte
26 de fev. de 2020, 15:41
— Lusa/AO online
“As
nossas projeções indicam que no futuro o habitat disponível quer para
os peixes, quer para os corais de profundidade serão reduzidos
significativamente essencialmente na parte sul do Atlântico Norte, onde a
região dos Açores está incluída”, afirmou hoje o investigador Telmo
Morato, em entrevista à agência Lusa.Telmo
Morato é investigador do Instituto do Mar (IMAR) e do centro OKEANOS da
Universidade dos Açores que está vocacionado para o estudo dos recursos
vivos marinhos no arquipélago açoriano.A
equipa do Okeanos "lidera o trabalho científico que projeta os impactos
das alterações climáticas no habitat disponível para corais de águas
frias e peixes de profundidade com interesse comercial", segundo
explicou.O trabalho, publicado na revista
científica internacional Global Change Biology, desenvolveu-se no âmbito
dos projetos de financiamento europeu ATLAS e SponGES, cujo objetivo é
melhorar o conhecimento dos ecossistemas do mar profundo do Atlântico
Norte e apoiar o desenvolvimento de políticas de gestão para o uso
sustentável dos oceanos. "Nós lideramos
este trabalho que é composto por 58 investigadores de toda a Europa,
incluindo da América do Norte, dos Estados Unidos e do Canadá, onde
avaliamos quais estão a ser e quais serão, os impactos das alterações
climáticas no mar profundo, nomeadamente naquelas espécies que constroem
um habitat, como por exemplo, os corais de profundidade, mas também nas
espécies de peixe, em algumas com interesse comercial", explicou.Segundo
o trabalho científico, "as tendências atuais das mudanças climáticas
poderão colocar em risco mais de 50% do habitat de corais de águas frias
do Atlântico Norte, enquanto o habitat disponível para peixes de
profundidade com interesse comercial poderá mudar até 1000 km para
norte. Estas projeções podem afetar significativamente o setor pesqueiro
e as comunidades que dependem dessas espécies". As
projeções apontam para "uma diminuição significativa do habitat
disponível para corais de águas frias e uma acentuada deslocação do
habitat de peixes de profundidade para norte".A
região dos Açores está incluída no estudo "e grande parte das projeções
que são feitas para o Atlântico Norte aplicam-se também ao arquipélago,
nomeadamente esta migração para norte das espécies de peixe e a redução
do habitat disponível para muitas espécies de corais", referiu ainda o
investigador."Não quer com isso dizer que
se vá perder todo o peixe de interesse comercial nos Açores. O estudo
alerta é que ao haver um aumento da temperatura do oceano no mar
profundo e do ph, as espécies de corais e de peixes terão tendência de
procurar zonas onde o habitat lhes é favorável", sublinhou o
investigador.Do ponto de vista dos corais,
o estudo projeta "uma redução do habitat disponível para estas
espécies" devido às alterações climáticas. "A
pesca também tem um impacto grande, mas caso não sejam tomadas medidas
para a redução da pegada ecológica, nomeadamente para as emissões de
dióxido de carbono para a atmosfera, os oceanos, em geral, e o mar
profundo, em particular, serão altamente afetados. E, a verdade é que as
alterações climáticas são a maior ameaça para o mar profundo e para as
espécies que lá habitam", alertou o investigador.