Alterações climáticas aceleram risco de incêndios e exigem mais gestão de risco
Hoje 11:37
— Lusa/AO Online
Esta
é uma das conclusões do relatório "Incêndios florestais em Portugal:
Mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar", divulgado hoje pela
organização ambientalista internacional Greenpeace e elaborado por uma
equipa de especialistas, entre os quais Domingos Xavier Viegas.Após
analisarem os incêndios desde 1943, mas focando-se mais nos
acontecimentos já deste século, os investigadores concluem que o sistema
de combate foi reforçado desde 2017, com mais recursos humanos, melhor
coordenação, formação e equipamentos, e que o investimento em prevenção
já representa mais de metade do financiamento da gestão do risco.Os
autores do estudo falam em melhorias no sistema de gestão do risco de
incêndio e na redução do número de incêndios, mas alertam que "os
grandes incêndios são cada vez mais frequentes. Desde 2000, os anos de
2003, 2005, 2017 e 2025 foram excecionais em termos de área ardida e de
número de vítimas".O relatório aponta três
grandes causas para Portugal ter sido nas últimas décadas um dos países
europeus com mais área ardida: as condições climáticas, a organização
da paisagem e a insuficiente gestão florestal.A
equipa aponta a dificuldade de uma gestão eficaz quando cerca de 90% da
floresta portuguesa é propriedade privada e, em especial no Norte e
Centro do país, a maioria dos proprietários possui apenas pequenas
parcelas.Além disso, muitas propriedades
foram deixadas ao abandono entre partilhas de heranças ou pela migração
da população que trocou a agricultura pelo trabalho nas cidades. São
terrenos muito pequenos e, por vezes, os "processos sucessórios fazem
com que os limites e a titularidade de algumas propriedades não estejam
claramente definidos. (...) A gestão das áreas florestais não é
eficiente nem uniforme", refere o relatório.O
despovoamento das zonas rurais reduziu a capacidade de uma primeira
intervenção, alertam os especialistas, recordando programas lançados nos
últimos anos, como o "Aldeia Segura, Pessoas Seguras" e o "Condomínio
de Aldeia" que conseguiram preparar melhor as comunidades e diminuir o
número de ignições.Mas "o ritmo das
alterações climáticas poderá superar os esforços coletivos para
modificar a paisagem florestal e preparar melhor os cidadãos para os
desafios futuros, a menos que seja atribuída uma maior prioridade
nacional à gestão do risco de incêndio", alertam.As
alterações climáticas estão a aumentar os períodos de calor e seca, mas
também a frequência de trovoadas, potenciando incêndios provocados por
raios.O estudo mostra que entre 2000 e
2025, as causas naturais representaram 8,15% da área ardida, sendo que
em 2025 pelo menos três dos dez maiores incêndios tiveram origem em
descargas elétricas, incluindo o maior incêndio de sempre registado em
Portugal, iniciado em Piódão.Quanto às
causas humanas, o fogo posto foi responsável por 41,9% da área ardida
neste século, seguindo-se as queimadas para gestão de pastagens (11,7%),
os reacendimentos (10,4%) e os acidentes, incluindo ignições associadas
a linhas elétricas (7,6%).Apesar de
Portugal apresentar uma taxa de sucesso superior a 90% na primeira
intervenção, os autores concluem que os incêndios que ocorrem em
condições meteorológicas extremas continuam a escapar à capacidade de
controlo.Sendo impossível alterar a
topografia ou travar a intensificação dos fenómenos extremos, os
especialistas defendem que a gestão do combustível deve assumir um papel
central na política nacional de prevenção."Erradicar
completamente o risco de incêndios florestais é uma tarefa quase
impossível", mas é possível dar "uma maior prioridade nacional à gestão
do risco de incêndio", defendem no estudo encomendado pela Greenpeace.A
associação ambientalista apresenta um conjunto de exigências para um
"futuro mais seguro", defendendo uma ação climática mais ambiciosa, com a
eliminação dos combustíveis fósseis e a neutralidade carbónica até
2040, bem como uma gestão anual de pelo menos 1% da área florestal.A
organização pede a limitação da expansão do eucalipto, a promoção de
espécies autóctones e o “reforço dos mosaicos agroflorestais” para
reduzir o risco de incêndio.Para a
Greenpeace, é preciso uma reforma da gestão florestal, com a conclusão
do cadastro, uma gestão conjunta dos minifúndios e uma maior
transparência na prevenção.Defende
igualmente o reforço do fogo controlado, a participação das comunidades
locais e a criação de uma plataforma pública para monitorizar as ações
de gestão de combustível.Para travar o
abandono rural, a organização propõe incentivos aos proprietários pela
gestão das terras e pela prevenção de incêndios. Defende ainda um pacto
entre Portugal e Espanha para coordenar a gestão da paisagem, partilhar
recursos e dados e garantir financiamento europeu para aumentar a
resiliência aos incêndios.