Alterações à greve são resposta a “perceção social” e visam interesses económicos
17 de set. de 2025, 12:23
— Lusa/AO Online
“Aquilo que o
anteprojeto vem fazer é, parece-me, tentar arranjar soluções para
problemas que muito sinceramente não existem e cria problemas novos,
incluindo de inconstitucionalidade", afirmou o secretário executivo da
União Geral de Trabalhadores (UGT), Carlos Alves, que esteve a ser
ouvido no parlamento, na sequência de um requerimento pedido pelo grupo
parlamentar do Chega. O anteprojeto de
reforma da legislação laboral prevê incluir o abastecimento alimentar,
os serviços de cuidado a crianças, idosos, doentes e pessoas com
deficiência e os "serviços de segurança privada de bens ou equipamentos
essenciais" nos setores que passam a estar abrangidos por serviços
mínimos em caso de greve.O Governo tem
justificado a intenção de alargar os serviços mínimos com o "equilibrar"
do direito à greve com a satisfação das necessidades sociais
impreteríveis.Para o secretário executivo desta central sindical, o Governo está a "dar resposta àquilo que é uma ilusão". "É
uma perceção social, que se tende a gerar, sobretudo, nas entrevistas
de rua, mas que não constituem de todo a imagem que a população tem
sobre o direito à greve", acrescentou, durante a audição na comissão de
Trabalho, Segurança Social e Inclusão, no parlamento.Entre
as duas principais críticas apontadas pela UGT sobre estas alterações
está a intenção de “para passarmos a ter um regime que consagra
transversalmente serviços mínimos” e, por outro, procurar responder a
interesses económicos. O secretário
executivo da UGT argumentou que “um dos exemplos mais claros” disso diz
respeito à alteração que o Governo quer fazer, tendo em vista abranger a
área do cuidado a crianças e idosos. “Nunca”
em Portugal ficou “uma criança ou um idoso por cuidar” devido a uma
greve, declarou Carlos Alves, apontando que o que está em causa “não é
uma necessidade social”, mas “um interesse puramente económico das
empresas que querem evitar faltas ao trabalho”.Em
resposta ao deputado social-democrata Pedro Roque, o secretário
executivo da UGT avisou ainda que se está a “entrar por um caminho que é
altamente perigoso”, ao “colocar o direito ao trabalho contra o direito
à greve”, sublinhando que estes dois direitos não entram “em rota de
colisão”. Já em resposta a um deputado do
PS sobre as “harmonizações” das decisões dos tribunais arbitrais
relativamente à imposição de serviços mínimos, Carlos Alves indicou que
“a única norma” que existe no Código de Trabalho para “garantir a alta
constância” das decisões, o Governo quer retirar. Defendeu
ainda que o atual enquadramento legal “é altamente fidedigno, com
decisões que são tomadas caso a caso”, “de forma específica para cada
caso, tratando de forma igual o que é igual e de forma diferente o que é
diferente” e não descurando a “proporcionalidade”.Pela
voz do Chega, Lina Pinheiro criticou o argumento do Governo de
"equilibrar o direito à greve com outros direitos fundamentais" e
sublinhou que a proposta do Governo "vai além do ajuste técnico". A
deputada defendeu ainda que "esta conquista não pode ser colocada em
causa", apelando para um "debate sério" e sem preconceitos ideológicos
em sede de Concertação Social. Do lado do
PSD, Pedro Roque criticou o 'timing' do requerimento, considerando que o
debate é "prematuro", dado que o anteprojeto está a ser debatido na
Concertação Social e "o parlamento será a seu tempo chamado a
pronunciar-se", quando foi convertido em proposta de lei. Por
outro lado, o deputado social-democrata defendeu que o direito à greve
"não pode ser minimamente beliscado", sem "prejuízo de se poder
revisitar" esta matéria "num ou noutro aspeto", dando como exemplo o
setor dos transportes, que tem serviços mínimos "demasiado restritivos e
"onde quem deseja ir trabalhar não o consegue fazer porque tem a vida
infernizada". Também o deputado do CDS-PP
Paulo Núncio considerou a discussão "extemporânea" e considerou a
proposta do Governo "perfeitamente equilibrada". "Concordamos que o direito à greve não é um direito absoluto", disse o deputado do partido parceiro de Governo do PSD. Do
lado do PS, Dália Miranda sublinhou que a proposta do Governo suscita
"sérias preocupações" e "levanta questões profundas sobre o rumo" que se
quer "para a democracia". "Se tudo é
essencial nada é verdadeiramente corrigido", sublinhou, alertando para o
"sério risco" de se criarem "arbitrariedades". Já
o deputado Jorge Pinto, do Livre, criticou o Chega por ter trazido
apenas esta proposta para ser debatida no parlamento, quando o
anteprojeto do Governo "envolve muitas outras dimensões" e sobre as
quais o partido liderado por André Ventura "tem estado calado",
acrescentando partilhar da crítica "em toda a linha" feita pelo
secretário executivo da UGT.