Alojamento local nos Açores espera "piores resultados de sempre" em 2026 devido à saída da Ryanair
Hoje 11:47
— Lusa
“Chegamos ao final do verão com empresas com menos rendimentos e com um recorde de custos, porque as empresas vão vendo as suas contas a aumentar, muito devido à inflação, aos custos de energia, da mão-de-obra também. O rendimento não aumentando da mesma forma, vamos ter o ano com os piores resultados de sempre para as empresas do alojamento local”, afirmou à agência Lusa, o presidente da Associação de Alojamento Local dos Açores (ALA), João Pinheiro.Desde outubro que o número de dormidas em alojamentos turísticos nos Açores regista uma descida face ao período homólogo.A apreensão dos empresários aumentou com a saída da companhia aérea de baixo custo Ryanair, no final de março.Segundo o relatório mais recente do Serviço Regional de Estatística dos Açores, relativo ao mês de julho, a hotelaria tem mantido uma tendência “relativamente estável” nos últimos meses, mas no alojamento local, com exceção de março, registam-se reduções homólogas desde novembro.No intervalo entre abril e julho, o alojamento local perdeu 72.746 dormidas (7,6%) face ao período homólogo.O presidente da Associação de Alojamento Local dos Açores disse que os primeiros seis meses sem voos da Ryanair confirmaram o impacto previsto aquando do anúncio da companhia.“O Alojamento Local é o setor mais afetado pela saída. Nós temos, mês após mês, vindo a ter quebras nas dormidas e é um resultado que já se adivinhava. São empresas que chegam ao final do verão com dificuldades”, apontou.Os empresários já fazem as contas ao impacto do primeiro inverno sem uma companhia ‘low-cost’ a voar para os Açores.“Os proprietários do alojamento local estão muito receosos com o início do inverno, porque olhando para os calendários, para as reservas futuras, o sinal não é animador. Vai trazer aqui um problema acrescido, não só para o alojamento local, mas para a economia local, para as pequenas e médias empresas”, alertou João Pinheiro.Com o anúncio da saída da Ryanair, o executivo açoriano assegurou que estava a trabalhar com a TAP e a Azores Airlines – únicas companhias que ligam os Açores a Portugal continental desde março – para colmatar o vazio deixado pela companhia ‘low-cost’.Segundo o empresário, não só a solução “não teve impacto”, como os preços das viagens para os Açores dispararam.“Nós estamos a assistir todos os meses a uma inflação imensa nos custos do transporte para os Açores, principalmente porque só existem duas companhias de bandeira a fazer a viagem entre o continente e as ilhas. Foi um resultado já antecipado. Podíamos ter feito muito melhor, se nos ouvissem, se colocassem mãos à obra”, lamentou.Nas páginas das agências imobiliárias nos Açores, já se encontram alguns anúncios de imóveis de alojamento local à venda.O presidente da ALA salientou que muitos empresários fizeram investimentos para comprar e recuperar edifícios degradados, a contar com uma rentabilidade que não se confirmou.Segundo João Pinheiro, há quem tenha optado por colocar o imóvel à venda e quem também esteja a despedir funcionários ou a deixar de contratar, “porque a perspetiva não é nada boa”.“Se nos tivessem anunciado há cinco anos que a estratégia dos Açores seria ter só as companhias de bandeira a voar, retirando um ‘player’ do mercado como uma ‘low-cost’, que voava já há 10 anos para a região, muitos dos investidores não tinham feito os investimentos que fizeram”, sublinhou.Numa reação aos números das dormidas em alojamentos turísticos, que têm baixado de mês para mês, o executivo açoriano alegou, em julho, que, apesar da “ligeira diminuição”, o setor “conseguiu gerar mais receita e aumentar os seus níveis de rentabilidade”, referindo-se a um aumento de proveitos na hotelaria.Os relatórios do SREA não incluem os números dos proveitos do alojamento local, mas o presidente da ALA contradiz a visão mais otimista do Governo Regional.“O que nos chega dos nossos associados é que, havendo menos hóspedes a chegar, há mais concorrência e há preços que estão a baixar. Há um conjunto de alojamentos a baixar o preço para tentar pelo menos salvaguardar a taxa de ocupação. Além da taxa de ocupação, que está a baixar, também temos os rendimentos, o preço médio, o RevPAR [rendimento por quarto disponível] a baixar”, indicou.João Pinheiro defendeu que os Açores podem voltar a ter companhias aéreas ‘low-cost’, se houver “negociação” por parte da associação Visit Azores ou até do Turismo de Portugal.“Eu acho que há interesse dessas companhias aéreas. Vamos comparar com a Região Autónoma de Madeira que tem três companhias ‘low-cost’ a voar o ano inteiro e nós neste momento não temos nenhuma”, frisou.O presidente da ALA criticou também o “desinvestimento em promoção na área dos eventos, que era fulcral para as épocas baixas”.“Há que desenvolver novamente os eventos para as épocas baixas, para dinamizar o mercado. A própria promoção digital está a falhar. Tem de haver mais comunicação com os setores do mercado, com áreas que estão interessadas em vir para os Açores na época baixa. Nós somos vendáveis o ano inteiro, agora é preciso que esta promoção seja bem feita”, vincou.A Lusa procurou também ouvir a secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, sobre o impacto da saída da Ryanair, mas Berta Cabral não se mostrou disponível até ao momento.