40 anos após o falecimento do poeta de "Ilha Maior", no Pico
23 de dez. de 2017, 15:30
— Célia Machado
Almeida
Firmino, nascido em Portalegre, em 1934, chegou ao Pico na década de
1950 para assumir as funções de escriturário do tribunal de São
Roque, no antigo Convento de São Pedro de Alcântara, mas,
atualmente, é considerado um dos grandes poetas da ilha. O picaroto
Manuel Tomás, jornalista, escritor, poeta e com um longo historial
na docência, coloca-o mesmo no grupo dos melhores do Pico. "Para
mim, Almeida Firmino, juntamente com Dias de Melo, José Martins
Garcia, José Enes e Nunes da Rosa - e estou a falar daqueles que se
libertaram já da lei da morte - são os nomes maiores da nossa
literatura. E ler um poema dele, de vez em quando, faz muito bem à
saúde", afirma Manuel Tomás (quem se vê no vídeo).
O
poeta conseguiu sentir as dores do ser ilhéu e elevou o Pico a "Ilha
Maior". "Foi alguém que se agarrou tanto à ilha que quis
mesmo ficar preso a ela. Talvez seja o poeta que mais sentiu esta
ilha, a ilha em geral, o estar isolado, a insula, verdeiramente dita.
Mas ele conhecia o mundo. Às vezes, não gosto quando dizem que ele
estava demasiado ilhado, transformado em ilha, como se isso fosse só
sinónimo de isolamento total e não percebesse o que estava à sua
volta. Não, ele percebia. Aliás, o poema emblemático 'Ilha Maior'
é sinal disso", defende Manuel Tomás, reconhecendo-lhe
qualidades de um ser insular. E sobre o escrito mais conhecido de
Almeida Firmino, Manuel Tomás acrescenta, em jeito de análise: "Não
é um poema que fique consignado a um tempo histórico desta ilha do
Pico. 'Ilha maior no sonho e na desgraça'... se calhar uma parte
continua a ser porque todos nós queremos que ela seja maior no sonho
e, por aí, mantém-se sempre atualizado. E 'na desgraça' no
sentido também daquilo que andamos à procura porque desgraça e
fome, que não são positivas, trazem consigo qualquer coisa que deve
provocar, na procura, o encontrar daquilo que há-de resolver essa
dificuldade. E depois o poema continua com 'a acenar aos navios que
ao longe passam rumo ao Canadá e América'. Isto, em sentido
figurado, continua a ser atual. Aliás, a juventude que sai do Pico
quando é que volta? Quem é que volta? Voltam alguns, meia dúzia,
por várias razões. Se calhar há uma parte da desgraça, de que
fala o poema, que continua viva, como sejam o emprego, a ocupação
das pessoas. Há uma busca constante de melhorar, de procurar fora,
de sair daqui mas gostando, sempre, de cá estar".
Quando
se lançou ao mar, o que deixou, afinal, o poeta? "Ele deixou a
sua poesia, fundamentalmente, embora também alguma prosa. Ainda hoje
publicar poesia é complicado e só os grandes nomes conseguem
maiores tiragens. No tempo dele ainda era mais difícil. Ele fazia
edições de autor, pequenos livros de 30/40 páginas, e,
provavelmente, os hábitos de leitura à volta dele não seriam
muitos", refere Manuel Tomás.
E
a ilha, de que forma continua presa a Almeida Firmino?
Curiosamente
este admirador da obra de Almeida Firmino conheceu o poeta apenas
algumas semanas antes da sua morte e não houve muito contacto: "O
padre Tomás Cardoso apresentou-me ao Almeida Firmino em julho de
1977. Eu conhecia-o já da sua poesia mas nunca tinha tido contacto
com ele pois eu vivi sempre fora da ilha até aos 32 anos, só
passava cá as férias de verão. Quando vim para o Pico em 1982 ele
já tinha morrido e foi aí que o conheci verdadeiramente pela sua
obra. O poeta não morre, o poeta ainda existe e disso há vários
sinais".
Narcose,
editado pela primeira vez em 1982, pela Secretaria Regional da
Educação e Cultura, e reeditado em 2009, pela autarquia de São
Roque, é o livro que compila toda a sua obra; em São Roque foi
atribuído o seu nome a uma das suas ruas; em 1990 a Câmara
Municipal de São Roque instituiu o Prémio Literário Almeida
Firmino, que continua a realizar-se de dois em dois anos; em meados
da mesma década Roberto Lino, músico picoense posteriormente
radicado nos Estados Unidos da América, cantou Almeida Firmino ao
compôr a melodia para o poema "Cais" e dar-lhe voz num
trabalho a solo, para o qual também tocou; em 2000 o município de
São Roque inaugurou o Monumento ao Baleeiro, instalado no Cais do
Pico, e perpetuou em frente à Fábrica da Baleia, atual Museu da
Indústria Baleeira, um excerto do poeta; no ano passado foi o
bólingue café, também no Cais do Pico, que abriu ostentando, numa
das suas paredes, a face do poeta e o poema "Ilha Maior",
em português e em inglês, e, já este ano, foi a Escola Básica e
Secundária de São Roque que homenageou Firmino ao atribuir o seu
nome à biblioteca daquele estabelecimento de ensino. Há, no
entanto, desde 1988, uma homenagem que se renova a cada semana, a
partir da vila da Madalena: o jornal Ilha
Maior,
que teve na sua fundação e como primeiro diretor Manuel Tomás e
cujo título não foi escolhido ao acaso. "No primeiro ano,
havia uma frase que aparecia em quase todas as edições: 'Ilha maior
no sonho e na desgraça, diz o poeta; ilha maior no sonho e na
realidade queremos nós' e este foi o lema de ter feito o jornal",
explica.
Um
outro Cais
E
o Cais do Pico, será ainda o mesmo por onde andou Almeida Firmino?
Manuel Tomás responde com um seguro não. O Cais mudou até de
cheiro: o odor intenso, do tempo em que a Fábrica da Baleia
laborava, desapareceu e a paisagem, no geral, está muito melhor.
Este já não é, em parte, o Cais do Pico por onde Almeida Firmino
andou. "Este Cais está mais bonito mas há coisas que, no tempo
dele, também eram bonitas; porém, agora está também mais arejado,
muito melhor", responde.
Almeida
Firmino foi aluno de José Régio e por este foi influenciado para a
escrita. Nessa época publicou os seus primeiros poemas. Em 1953
chegou aos Açores com o pai que havia sido colocado na secretaria do
tribunal de Angra do Heroísmo. Na ilha Terceira trabalhou na Base
das Lajes mas teve de se ausentar do arquipélago para cumprir
serviço militar, findo o qual regressou à região e foi colocado
como escriturário no tribunal de São Roque. Há ainda a registar
que a partir de 1957 publicou diversos livros da sua autoria, que foi
um dos co-diretore da revista de arte "Gávea",
conjuntamente com Emanuel Félix e Rogério Silva, e colaborou com
outras publicações.