Almeida e Guerreiro gostavam de inspirar nova geração de ciclistas portugueses
Giro
26 de out. de 2020, 17:32
— Lusa/AO Online
Embora
em equipas diferentes, foram muitos os momentos em que os
(tele)espetadores puderam presenciar o apoio de Ruben Guerreiro
(Education First) a João Almeida (Deceuninck-QuickStep) na defesa da
camisola rosa que o jovem de A-dos-Francos envergou durante 15 dias. “A
minha corrida acabava mais cedo e pensava ‘vamos lá vestir a camisola
de Portugal’. Os meus diretores não levavam a mal e eu tentava dar um
incentivo ao João. Em tom de brincadeira, […] houve dias e dias –
quantos foram? 10? -, em que nos juntávamos à partida e eu dizia-lhe
‘amanhã aqui à mesma hora’”, revelou o sempre bem-disposto ciclista da
Education First, arrancando gargalhadas àqueles que estiveram presentes
na conferência de imprensa dos dois portugueses, na chegada a Portugal.Mais
contido, Almeida recordou que, no final da nona etapa, vencida por
Guerreiro, na véspera do primeiro dia de descanso, quando chegaram ao
pódio, o compatriota o avisou: “terça-feira à mesma hora”. “Depois
falhei eu. Depois recuperei a camisola e perguntei se tinhas saudades”,
brincou o ciclista do Montijo, de 26 anos, para rápida resposta do mais
jovem: “Não tinha passado um dia e já estava a chorar por ele”.A
boa relação dos dois ajudou-os ao longo das duras três semanas da
‘corsa rosa’, com Almeida a dizer que falavam, comunicam e tentavam
motivar-se diariamente, até porque eram os dois únicos portugueses em
prova e tudo o que pudessem alcançar seria bom para o país.E
foi precisamente para Portugal e para o ciclismo português que pendeu a
‘conversa’, com ambos a assumirem ainda não terem tido noção do
verdadeiro impacto nacional das suas exibições, por terem estado tão
concentrados na corrida.“Ficámos mesmo
muito contentes de haver ciclismo, em Portugal e no estrangeiro […].
Esse foi o primeiro passo. Depois, esta questão toda [da pandemia de
covid-19] deu-nos tempo para pensarmos bem no que queríamos e agarrar as
oportunidades. Penso que foi uma motivação extra. Como nós, há mais
talentos por aí no ciclismo. Temos o Rui [Costa], que ainda não está
terminado, o nosso campeão, e jovens como o André Carvalho, que assinou
agora pela Cofidis, e é outro português no WorldTour”, analisou
Guerreiro.O ‘rei da montanha’ do Giro
respondia assim a uma questão sobre a influência que o desempenho dos
portugueses em Itália pode ter na modalidade, recordando que, quando Rui
Costa foi campeão do mundo, em 2013, se lembra de pensar: “Um dia
também gostava de ser campeão do mundo”.“Dá-nos
uma motivação extra e esperamos que os jovens estejam de olho em nós e
noutros corredores portugueses e que tenham sorte, que também é
preciso”, completou, enquanto o quarto classificado da ‘corsa rosa’
admitiu que ficaria “muito orgulhoso” se os miúdos que estão a dar as
primeiras pedaladas olhassem para si como uma inspiração.Questionados
sobre o futuro nas grandes Voltas, quer Almeida, quer Guerreiro foram
cautelosos. “Sou um caça etapas, não penso muito na geral ainda. Gostava
de ter a oportunidade das clássicas nas Ardenas”, disse o mais velho
dos dois, com o mais novo a notar que as corridas de três semanas são
“muito duras”.“Em três semanas, todos os
dias temos de estar bem física e psicologicamente. Tanto eu como o Ruben
demonstrámos bastante responsabilidade. Claramente temos muito de
trabalhar. No ciclismo, ninguém está para brincadeiras, o nível está
muito elevado, e todos querem ganhar”, defendeu.Aquele
que é já o melhor português de sempre no Giro afastou ainda a hipótese
de estar, a curto prazo, a lutar pela geral na Volta a França.“Por
enquanto, não. Gosto do Giro, é a minha grande Volta favorita. Mas
vamos continuando a aprender, tentar descobrir-me a mim próprio. Sonho
um dia terminar a Volta a França, qualquer corredor o sonha. Mas,
pessoalmente, gosto mais do Giro”, concluiu.