Alimentos com alto teor calórico são os preferidos de todos
21 de dez. de 2024, 11:00
— Lusa
Num comunicado, a Fundação
Champalimaud refere que o trabalho, no qual participou o investigador e
médico psiquiatra da instituição Albino Oliveira-Maia, mostrou que “os
alimentos com maior teor calórico foram os preferidos tanto entre
indivíduos com como sem obesidade, apesar de os seus sabor e textura
serem semelhantes”.Explicam os cientistas
que quando comemos são enviados sinais ao cérebro com informação sobre o
conteúdo energético de um alimento, o que pode influenciar as nossas
preferências alimentares, independentemente do sabor. “As
pessoas com obesidade apresentam frequentemente alterações em áreas do
cérebro onde a dopamina (neurotransmissor ligado à sensação de prazer e
motivação) é libertada, o que pode motivar o consumo alimentar
relacionado com a recompensa, bem como a preferência por alimentos ricos
em energia, gordura e açúcares”. “A perda
de peso devido à cirurgia bariátrica (de redução do estômago, para
tratar casos de obesidade grave) tem sido associada a uma normalização
da alimentação relacionada com a recompensa, com uma mudança de
preferências para opções mais saudáveis, mas os mecanismos subjacentes
não são bem compreendidos”. A hipótese
colocada pelos cientistas portugueses foi a de que “as recompensas após a
ingestão (…) são prejudicadas na obesidade, em comparação com uma
amostra saudável e magra, e são recuperadas pela cirurgia bariátrica”.Nesse
sentido, após examinar um grande grupo de voluntários saudáveis, os
investigadores compararam as preferências alimentares em três grupos: 11
indivíduos com obesidade, 23 doentes após cirurgia bariátrica e 27
indivíduos de controlo não obesos. Os
participantes receberam iogurtes magros doces, com ou sem maltodextrina
(um hidrato de carbono que acrescenta calorias ao iogurte sem impacto no
sabor ou na textura), que comiam em casa, alternando entre o iogurte
que continha maltodextrina e o simples. Para
visualizar os recetores de dopamina no cérebro utilizou-se a “marcação
com iodo radioativo e a tomografia computorizada de emissão de fotão
único”, tendo os indivíduos com obesidade apresentado menor
disponibilidade de recetores deste neurotransmissor do que “os controlos
sem obesidade”. No caso destes, “a disponibilidade de recetores de
dopamina foi semelhante nos grupos cirúrgico e não obeso e esteve
associada a níveis mais elevados de restrição alimentar”.“Nos
três grupos, os participantes comeram mais iogurte contendo
maltodextrina, apesar de classificarem ambos como igualmente
agradáveis”, mostrou o estudo.Segundo os
investigadores, foi “algo inesperado”, o facto de os efeitos da
maltodextrina no consumo de iogurte terem sido “semelhantes nos
indivíduos com obesidade em relação aos participantes sem obesidade”. “Ficámos
muito intrigados porque, apesar de o comportamento estar orientado para
a ingestão de iogurtes com maior teor energético, tal não pareceu ser o
resultado de escolhas explícitas, uma vez que não foram encontradas
alterações consistentes na agradabilidade dos sabores enriquecidos com
hidratos de carbono”, indicam os autores do artigo citados no
comunicado.Salientam, por outro lado, que
aquele “comportamento se manteve em doentes com obesidade e após
cirurgia para perda de peso, embora existissem diferenças importantes no
sistema dopaminérgico cerebral.”“Estes
resultados sugerem que as alterações cerebrais relacionadas com a
obesidade podem ser revertidas após a cirurgia bariátrica, impactando
potencialmente a quantidade de alimentos consumidos, mas não
necessariamente os tipos de alimentos preferidos”, refere o texto da
PLOS Biology sobre o trabalho divulgado pela Fundação Champalimaud.