Ainda há pessoas sem qualquer abrigo na Síria e ajuda tarda em chegar
Turquia/Sismo
16 de fev. de 2023, 07:38
— Lusa/AO Online
Mahmoud
Chehadi, sírio de Alepo, fundou a organização não governamental (ONG)
Orange há sete anos, na cidade turca de Gaziantep, e até ao sismo os
seus principais objetivos eram a educação e a melhoria das condições de
vida, tanto no sudeste da Turquia como no norte da Síria.Mas
após o sismo de 06 de fevereiro, “tudo mudou”, conta à agência Lusa
Mahmoud Chehadi, que tem dado resposta a pessoas afetadas pelo sismo na
Turquia, mas que desde o primeiro dia esteve em cidades afetadas no
norte da Síria, como Afrin, Jenderis ou Jarabulus, onde já tinha uma
equipa no terreno.O próprio diretor da Orange esteve há três dia em Azaz, Afrin e Jenderis, onde encontrou “uma situação terrível”.“Há
muita gente afetada. Em Jenderis, eu não vi uma única casa de pé. Há
seis mil famílias e, nos primeiros dois dias, dormiram na rua, sem
qualquer abrigo”, disse Chehadi à agência Lusa. A
sua ONG e outras com trabalho no norte da Síria tentaram dar a melhor
resposta possível, mas falta-lhes escala e capacidade “para dar apoio a
tanta, tanta gente”.“Houve uma demora na
resposta por parte das organizações internacionais e continua a haver
uma grande necessidade de ajuda dentro da Síria. Há ainda muitas
famílias na rua, sem qualquer tipo de abrigo”, contou.Mahmoud
salientou ainda que estas cidades e vilas já estavam muito afetadas
pela guerra civil que eclodiu na Síria em 2011, com infraestruturas
precárias e deficientes.“Após o sismo, tudo ficou pior”, notou, elencando como necessidade prioritária tendas, seguida de comida e roupa.O
diretor da Orange sublinhou que as organizações internacionais chegaram
muito tarde, numa região onde à noite, nesta altura do ano, podem ser
registadas temperaturas de três a cinco graus negativos.Para
além do apoio imediato, há também necessidade de ajuda na limpeza das
ruas e remoção dos escombros, em locais onde o Estado é inexistente e
onde falta maquinaria pesada para fazer esse trabalho.O
diretor da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom
Ghebreyesus, afirmou que os sobreviventes do sismo de 06 de fevereiro na
Síria precisam de condições adequadas de alojamento e acesso a cuidados
médicos, alimentos e água potável.“Pude
ver, em primeira mão, a destruição de comunidades inteiras, o enorme
sofrimento da população e a coragem dos sobreviventes e dos serviços de
resposta aos sismos”, disse, em conferência de imprensa. Na
terça-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançou um
apelo humanitário de 397 milhões de dólares (369,3 milhões de euros)
destinado a ajudar o povo sírio por três meses após os sismos que
atingiram a Síria e a Turquia.O número de
mortos pelos dois sismos, de força 7,7 e 7,6, já ultrapassa 35.000 na
Turquia e 5.000 na Síria, mas teme-se que ainda possa subir mais.Também
Abulrahman Dadam, diretor da Önder, outra ONG sediada em Gaziantep e
que trabalha com a comunidade síria afetada pela guerra, elenca as
tendas como prioridade.“Há ainda, pelo
menos, três mil famílias sem qualquer tenda. O que precisam mais é de
tendas, para aguentar as noites. Há famílias sentadas nas ruínas”,
afirmou o responsável daquela ONG criada há cinco anos, que falava à
Lusa enquanto passava, mais uma vez, a fronteira da Turquia com a Síria
para prestar apoio a desalojados em Jinderis, Afrin e Jarabulus. Entrou
no norte da Síria dois dias após o sismo e, desde então, tem sido um
vai e vem, entre a cidade turca de Gaziantep (a uma hora da fronteira) e
o país vizinho.Nos primeiros dias enviou
água e comida, agora faz seguir aquecedores, medicamentos e criou postos
médicos e serviços para pessoas com deficiências que sobreviveram ao
sismo.“O apoio não é suficiente”, confirma
Abdulrahman Dadam, notando ainda que, apesar de não ter tido qualquer
problema em entrar na Síria, o mesmo não acontece com os sírios que
agora tentam chegar à Turquia.“Como estão também a sofrer por causa do sismo, não estão a aceitar pessoas da Síria”, explicou.