Aguiar-Branco solicita inquérito a Filipe Melo (Chega) e realça eventual ação da justiça
10 de nov. de 2025, 20:27
— AO Online/Lusa
No mesmo despacho sobre este caso, ao qual a
agência Lusa teve acesso, José Pedro Aguiar-Branco também realçou que
compete às autoridades judiciárias “apreciar e determinar se a conduta
em causa preenche os elementos constitutivos de algum dos tipos legais
de crime previstos no Código Penal, cabendo-lhes, em conformidade,
decidir sobre a eventual instauração dos correspondentes procedimentos
criminais”.Na sexta-feira, a deputada
socialista Eva Cruzeiro requereu formalmente ao presidente da Assembleia
da República a abertura de um inquérito a Filipe Melo, na sequência de
um incidente ocorrido em 29 de outubro passado, durante uma audição com o
ministro da Presidência, António Leitão Amaro, quando se debatia a
questão da imigração.“Gritou-me, vai para a tua terra”, conta a deputada do PS na carta que enviou a José Pedro Aguiar-Branco.Na
resposta à queixa de Eva Cruzeiro, o presidente da Assembleia da
República, no seu despacho, solicitou à Comissão Parlamentar de
Transparência e Estatuto dos Deputados que “proceda a inquérito aos
factos denunciados e relacionados com eventuais irregularidades graves
praticadas com violação dos deveres dos deputados, por parte do senhor
deputado Filipe Melo, eventualmente emitindo recomendações adaptadas à
presente situação”.Solicitou ainda à
secretária-geral da Assembleia da República que “diligencie pela
obtenção das imagens recolhidas pelo Canal Parlamento no decurso da
referida sessão e pela sua remessa à Comissão Parlamentar de
Transparência e Estatuto dos Deputados”.Mas,
perante este caso, José Pedro Aguiar-Branco fez também uma referência
às competências das autoridades judiciais em casos de eventual conduta
criminal.Neste ponto, o presidente da
Assembleia da República assinalou que Eva Cruzeiro alegou que a conduta
do deputado do Chega poderá configurar responsabilidade criminal, por
discriminação e incitamento ao ódio ou à violência com base em raça,
cor, origem étnica ou nacional, com pena até oito anos de prisão.José
Pedro Aguiar-Branco lembrou então que “a apreciação e qualificação
jurídico-penal dos factos extravasam as competências do presidente da
Assembleia da República, que não pode, em momento algum, substituir-se
aos tribunais ou às autoridades judiciárias na determinação de eventual
responsabilidade criminal”.“Competirá,
assim, exclusivamente às autoridades judiciárias competentes apreciar e
determinar se a conduta em causa preenche os elementos constitutivos de
algum dos tipos legais de crime previstos no Código Penal, cabendo-lhes,
em conformidade, decidir sobre a eventual instauração dos
correspondentes procedimentos criminais”, concluiu.Neste
caso, o Ministério Público tanto poderá atuar por iniciativa própria,
como por solicitação da Comissão Parlamentar de Transparência, caso se
entenda que há matéria para instauração de procedimentos criminais.No
seu despacho, José Pedro Aguiar-Branco anotou, também, que, embora
Filipe Melo não se encontrasse, à data dos factos, no exercício de
funções enquanto membro da Mesa da Assembleia da República, “cumpre,
ainda assim, sublinhar que os membros da Mesa estão sujeitos a deveres
acrescidos de isenção, imparcialidade e rigor, devendo pautar a sua
conduta por elevados padrões de exemplaridade pública”.“Ora,
a confirmar-se os factos relatados, os mesmos são inteiramente
condenáveis e merecem a mais firme censura política e institucional.
Qualquer comportamento suscetível de ser interpretado como ato de
intimidação, silenciamento ou discriminação é absolutamente incompatível
com o prestígio e a responsabilidade inerentes ao mandato parlamentar,
afetando não apenas a urbanidade e o decoro que devem pautar o debate
político, mas também a credibilidade da Assembleia da República enquanto
garante do pluralismo democrático e da igualdade entre todos os
cidadãos”, acrescentou.Filipe Melo tem na
Comissão de Transparência uma outra queixa contra si, esta da deputada
socialista Isabel Moreira e que também já teve despacho favorável do
presidente da Assembleia da República.Neste
caso, Filipe Melo é acusado de ter dirigido a Isabel Moreira “gestos
considerados desrespeitosos, designadamente, mandado beijos, e feito
sinais para se calar, numa alegada tentativa de silenciamento”.