Agricultores do Mondego dizem que água poderá ficar meses nos campos
24 de dez. de 2019, 11:29
— Lusa/AO Online
Em declarações à Lusa, Armindo
Valente estimou que com a situação de cheia que afeta aquela zona desde
sábado "praticamente a totalidade da área de cultivo do Baixo Mondego
[entre 5.000 a 6.000 hectares, o equivalente a mais de 8.500 campos
relvados de futebol] está debaixo de água". "Uma
parte pelas inundações provocadas pelo Mondego, outra pelos afluentes,
pelo Pranto, Arunca e Foja, mas está tudo debaixo de água", reforçou. Numa
elevação da localidade de Meãs do Campo, Armindo Valente olha o vale do
Mondego submerso e assinala, à distância, o visível rombo no dique
direito do canal principal - que ruiu sábado entre as pontes de Pereira e
Formoselha, sensivelmente na mesma zona de um outro ocorrido aquando
das cheias de 2001. O agricultor estima
"prejuízos gravíssimos e bastante avultados" para as infraestruturas de
regadio e drenagem da planície agrícola, quer por ação da inundação -
que há 18 anos arrancou caixas de rega e entulhou valas, entre outros
danos - mas também pela areia arrastada pelo rio para dentro dos campos.
"Na altura, o rio transportou areia para
dentro dos campos agrícolas, cerca de 50.000 metros cúbicos (m3) [o
equivalente a um valor entre as 85 mil e as 115 mil toneladas de
sedimentos] e agora pode acontecer o mesmo. Mas só quando as águas
baixarem é que teremos a perceção real da situação", notou Armindo
Valente. Por outro lado está a questão do
escoamento de água, que continua a entrar nos campos agrícolas pelo
buraco aberto na margem direita do leito principal, à razão de 400 m3/s -
400 mil litros por segundo - débito revelado hoje pelo comandante
distrital de operações de socorro de Coimbra, Carlos Luís Tavares. Sem
a rutura que aconteceu domingo no talude esquerdo do leito periférico
direito do rio (canal abastecido pela água das encostas das povoações de
Carapinheira, Meãs do Campo e Tentúgal, na margem norte da Bacia do
Mondego) - que se aumenta o perigo de inundação da vila de
Montemor-o-Velho, caso o talude do lado direito (que tem vindo a ser
reforçado com pedra) também venha a ceder, mas paradoxalmente favorece o
escoamento da água que ali entra proveniente da planície inundada -
Armindo Valente apontava um prazo de seis meses para a água voltar ao
Mondego. É que sem o 'novo' caminho de
regresso ao rio, 'proporcionado' pelo colapso no talude esquerdo do
leito periférico direito, a saída da água dos campos seria feita apenas
pelo chamado leito abandonado - este oriundo de uma obra do século
XVIII, apelidado de "Rio Velho", por onde o Mondego corria junto a
Montemor-o-Velho e à povoação de Ereira, até à obra de regularização da
década de 1970 o ter localizado mais a sul. Na
zona da ponte das Lavandeiras - local que por ser a confluência de
vários canais, incluindo um outro, hoje não visível, mas que era o rio
ancestral, a população apelida de "embrulhada" de Montemor - o Rio Velho
passa por debaixo do leito periférico direito, por um sistema de sifão e
segue a céu aberto cerca de seis quilómetros, até regressar ao leito
principal do Mondego, a jusante, após a povoação de Ereira, já na
fronteira com o município da Figueira da Foz. "Compete
à APA [Agência Portuguesa do Ambiente] perceber como é que esta água
toda que está dentro dos campos agrícolas vai regressar ao Mondego,
porque todo este escoamento do vale central é feito por um sifão que é
como um ralo de uma banheira gigantesca", ilustrou Armindo Valente. "Não
estou a dizer que o sifão tem de ser aumentado, porque senão estaríamos
a transferir a cheia dos campos do vale central para Montemor. Mas têm
de ser feitas umas comportas na confluência do leito periférico com o
rio Mondego, para que esta água possa ter condições de regressar ao
Mondego, porque só com o sifão nem daqui a seis meses sai. E diziam que
as cheias do Mondego estavam previstas de 50 em 50 anos, mas está visto
que não é assim", alertou o presidente da cooperativa agrícola.