Agravamento das previsões económicas pode obrigar a novo orçamento
9 de jul. de 2020, 07:28
— LUSA/AO online
Segundo Joaquim Miranda Sarmento, professor de
Finanças do ISEG - Lisbon School of Economics & Management
Universidade de Lisboa, “se se confirmar que a quebra do produto interno
bruto (PIB) rondará os 10% [a Comissão Europeia agravou na terça-feira
as suas previsões para Portugal face aos choques da covid-19, estimando
agora uma contração de 9,8%, muito acima da anterior projeção de 6,8% e
da do Governo, de 6,9%], as previsões do Governo no Orçamento
Suplementar terão de ser revistas”.“E –
acrescenta – como referiu a presidente do Conselho das Finanças
Públicas, existe um elevado risco de o Governo ter de apresentar um
segundo Suplementar, dado que pode vir a precisar de mais despesa e
sobretudo mais endividamento (por via da quebra de receitas fiscais e
contributivas)”.Também para o presidente
do Conselho de Administração da corretora DIF Broker, “o Governo terá de
rever as previsões, uma vez que muitos estudos, e até o Conselho das
Finanças Públicas, já apontavam para uma degradação bastante forte da
economia, em virtude do encerramento de fronteiras e do seu impacto no
turismo”. “É natural que as previsões
sejam revistas em baixa e poderão ainda ser agravadas, tendo em conta a
limitação do acesso de Portugal a corredores turísticos”, disse Pedro
Lino à agência Lusa.Já Ricardo Cabral,
professor da Universidade da Madeira e especialista em finanças
públicas, considera que o Orçamento do Estado Suplementar “foi feito num
contexto de grande incerteza e desenhado com margem significativa para
acomodar desvios” e, embora admita que “a revisão de previsões no muito
curto prazo pode ocorrer”, diz que não terá “consequências se não
obrigar a nova lei de revisão orçamental (retificativo)”.E
se um novo orçamento retificativo “só será necessário se a autorização
de despesa ou de endividamento for ultrapassada, o que não se afigura
que venha a ocorrer, dado que a despesa está relativamente controlada e o
aumento da despesa prevista no Orçamento do Estado Suplementar foi
muito generoso”, o professor universitário considera que, “se a queda de
receitas e o défice público forem muito mais pronunciados do que o
previsto, o Governo deveria submeter novo Orçamento do Estado
retificativo à Assembleia da República mais próximo do final do ano”.Adicionalmente,
acrescenta, “fará pouco sentido manter o calendário definido na lei
para a elaboração do Orçamento do Estado de 2021, que deveria ser
retardado”.O professor da Nova SBE João
Duarte e o economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros Filipe
Garcia consideram, por sua vez, que “o Governo não é obrigado a rever”
as suas últimas projeções, até porque “a volatilidade das previsões
mostra que há muita incerteza”, a não ser “que novos decretos-lei sejam
necessários para reforço do orçamento novamente”. “As
constantes revisões de previsões confirmam este contexto de incerteza
elevadíssima. De todo o modo, o Ministério das Finanças faz a revisão
bimestralmente que pode servir de auxilio na elaboração e discussão dos
projetos da Lei de Diretrizes Orçamentárias”, sustenta João Duarte.Na
mesma linha, o professor de Finanças do ISEG - Lisbon School of
Economics & Management João Duque acredita que “o Governo manterá as
suas previsões e, apenas em caso de uma profunda divergência da
execução orçamental, sem espaço de acomodação através de alterações
orçamentais entre algumas rubricas, irá alterar o orçamento”. “Só
o futuro irá mostrar quem está certo”, corrobora Filipe Garcia, que
considera “importante” analisar o “ângulo político” deste agravamento
das previsões por parte da Comissão Europeia (CE). “Esta
revisão para pior feita por parte da Comissão Europeia poderá ajudar os
países da União Europeia (UE) a chegar a um acordo acerca dos estímulos
a implementar para a recuperação económica nas negociações que estão em
curso. Se a revisão da CE fosse simétrica para melhor, iria com certeza
haver mais dificuldades em se chegar a um entendimento”, sustenta,
considerando que “este sentido de urgência e de necessidade é um
facilitador de consensos”.Já para
Portugal, e “se houver luz verde por parte da UE, estes números irão
provavelmente afastar as pretensões de um maior equilíbrio orçamental”,
já que “seguramente a oposição mais à esquerda – que na prática tem
viabilizado a governação – não admitirá outro caminho”, diz.Relativamente
às previsões em cima da mesa de evolução do PIB português no segundo
trimestre e no conjunto do ano, o “contexto de incerteza elevadíssima”
leva vários dos economistas e analistas ouvidos pela Lusa a preferir não
arriscar valores.Ainda assim, os
intervalos avançados por alguns apontam para uma contração da economia
portuguesa entre os 15% e os 20% de abril a junho e entre os 8% e os 15%
no acumulado do ano 2020.“O conjunto do
ano dependerá muito da evolução da crise de saúde. Se esta melhorar
(cenário utilizado pela CE), poderemos balizar a queda para 2020 abaixo
dos 9-11% para o ano. Se esta continuar ou aumentar (infelizmente, como é
provável que aconteça), a queda do PIB pode chegar 12-16% em 2020”,
estima João Duarte, da Nova SBE.Mais
otimista, João Duque prevê neste momento para 2020 “uma quebra centrada
nos 8%, com um intervalo de previsão entre os 7% e os 9%”, enquanto
Joaquim Miranda Sarmento considera que, “depois de uma quebra do PIB no
primeiro trimestre de 3,8%, o segundo trimestre deverá cair próximo de
20% e, provavelmente, o terceiro e quarto trimestres ainda serão de
quebra do PIB”.Já a projeção do Banco BPI é
de uma queda do PIB de 12% em 2020 e de recuperação de 8% em 2021,
embora “sujeita a um elevado nível de incerteza, dependendo
fundamentalmente da evolução da pandemia e do ‘timing’ de resolução da
crise sanitária”.A DIF Broker antecipa que
“a queda do segundo trimestre poderá muito bem aproximar-se dos 20%,
com uma recuperação ao longo do ano, que deve registar uma queda anual
ligeiramente superior a 10%, um valor infelizmente histórico”.O
ISEG, por sua vez, estima que a variação homóloga do PIB terá atingido
um mínimo histórico entre -20% e -15% no segundo trimestre e Ricardo
Cabral, da Universidade da Madeira, aponta para uma retração “superior a
10%” este ano.“Assumindo que no resto do
ano a atividade económica se mantém ao ritmo do presente e que não há
retrocessos que obriguem a novas medidas de isolamento, parece-me que a
queda do PIB será talvez de cerca de 15%, o ponto médio de um intervalo
entre 10% e 20%, mas só porque o crescimento económico no primeiro
trimestre foi bom”, refere.Rui
Constantino, economista-chefe do Santander Portugal, baseia-se na
informação preliminar disponível para antecipar uma contração do PIB de
12% em cadeia e de 15% em termos homólogos no segundo trimestre e admite
que, “fruto desta dinâmica, e considerando uma recuperação gradual a
partir do terceiro trimestre, o PIB em 2020 poderá contrair cerca de
9,6%, influenciado pela moderação do consumo (em especial em bens
duradouros) e uma queda quer do investimento, quer das exportações”.