“Agora percebo o que dizem sobre se fazer o que se gosta. Eu gosto muito daquilo que faço”
26 de abr. de 2026, 08:00
— Ana Carvalho Melo
Bia Wong nasceu em Lisboa, porque os pais viviam em Santa Maria e “não dava para nascer lá”. Passou os dois primeiros anos nesta ilha, a que se seguiram dois anos em São Miguel. Depois dois anos em Macau. E de volta a São Miguel, onde ficaria até aos quase 17 anos. “Cresci a maior parte da minha vida em São Miguel”, diz a atriz, hoje com 25 anos e a viver em Lisboa. A sua mãe é de Macau e o pai é micaelense, uma herança bicultural que moldou uma forma de estar no mundo. “Tive uma influência chinesa da parte da minha mãe em termos culturais e da educação”, explica, acrescentando: “O meu pai é de São Miguel, por isso tenho assim um bocadinho de duas culturas na forma como cresci".Em Macau, estudou numa escola portuguesa, mas isso não significou ausência de diversidade. “Havia pessoas com diferentes backgrounds, com ambos os pais chineses, ambos os pais portugueses, muitas pessoas diferentes”, recordou.O choque chegou depois, quando regressou a São Miguel no início dos anos 2000. “De repente não vi essa diversidade toda cultural na altura”, conta, explicando que nessa altura a menina que tinha crescido entre línguas, rostos e costumes distintos deparou-se com um mundo mais homogéneo.Mas crescer nos Açores também lhe deu algo que Lisboa nunca poderia ter oferecido: a natureza como território de liberdade. O pai inscreveu-a em tudo o que podia: patinagem artística, golfe, surf, ginástica, equitação. Aos 14 anos tirou o curso de mergulho nos Açores. Esta ligação profunda ao mar e à natureza açoriana nunca desapareceu. “Hoje em dia tenho uma relação muito, muito próxima com o mar. Acho que não era capaz de viver numa cidade que não estivesse perto do mar”, contou, explicando que, mesmo vivendo em Lisboa, regressa sempre que pode. “É sempre bom voltar a casa e estar perto da minha família, acima de tudo".O caminho de Bia Wong para a representação pode ser resumido como um conjunto de coincidências felizes encadeadas. Em criança, via “America’s Next Top Model” com a mãe e sonhava com passerelles. No entanto como só tem 1,60 metros, percebeu que as passerelles não estavam no horizonte. O primeiro casting que fez, ficou logo com o trabalho. “Deu-me assim uma falsa sensação de confiança, porque neste meio ouvem-se muitos nãos, talvez 30 nãos por cada sim”, conta. Mas o momento que mudou tudo foi diferente. Um voo atrasado, troca de roupa no avião, umas botas de atacadores de cores diferentes, um estilo japonês Harajuku que a agência tinha pedido sem avisar que teria de fazer playback de uma música em japonês. Um casting completamente caótico que, foi o que a revelou.“O dono da empresa de casting viu o meu vídeo e foi falar com o meu pai. Disse-lhe que eu tinha imenso jeito, se eu já tinha pensado em ser atriz”, conta, explicando que foi também quem lhe recomendou uma escola e falou com quem hoje é o seu agente, que na altura “só agenciava pessoas já com currículo”. A partir daí, a carreira de atriz deixou de ser uma realidade distante para se tornar uma realidade presente.Pelo meio, Bia Wong foi para a faculdade estudar Ciências Forenses e Criminais, muito influenciada pelo CSI, confessa com humor. Mas o estágio profissional confirmou o que ela já suspeitava: “Trabalhei em algumas áreas e percebi que realmente não é para mim trabalhar das 9 às 5. Eu lembro-me de acabar o estágio profissional e estar mesmo infeliz”.Atualmente, Bia Wong tem um percurso televisivo consistente que lhe dá projeção. O “Codex 632”, coprodução entre Portugal e o Brasil para a RTP e a Globo Play, “a primeira coprodução entre os dois países”, salienta, foi o projeto que mais impacto teve na sua carreira. “Tive a oportunidade de trabalhar com grandes atores brasileiros”, conta. Seguiu-se a novela “Flor Sem Tempo”, depois “Os Eleitos” na OPTO, e mais recentemente “Lua Vermelha: Nova Geração” para a OPTO e a Prime Video, e ainda “O Grito”, série para a RTP e a HBO protagonizada por Daniela Ruah e Sara Matos.Para 2026, tem já planeada uma série, baseada num livro que leu em criança, “o que me deixa muito feliz”, e a sua primeira longa-metragem, produzida pelo maior produtor de cinema em Portugal para os circuitos de festivais internacionais. Há também uma curta-metragem filmada em Macau, durante uma visita à família, onde recebeu inesperadamente um casting de um realizador português que queria gravar precisamente ali. Duas semanas depois de regressar a Portugal, estava de volta a Macau, desta vez em trabalho.Mas a escala internacional não é novidade para a atriz que, para além da campanha da Peugeot que percorreu o mundo sem avisar, fez campanhas para a Billabong a nível mundial e uma produção publicitária cujo realizador era o mesmo de “The Brutalist”, nomeado para os Óscares. “Se não tivesse sido essa publicidade internacional, não sei se alguma vez teria tido essa oportunidade”, contou, recordando que a campanha da Peugeot, da qual era apenas uma personagem secundária ao fundo do plano, levou-a até paragens de autocarro em França e fachadas de prédios inteiros. “De repente tenho pessoas em França a mandarem-me fotos de paragens de autocarro com a minha cara”, recordou.Aos 25 anos, Bia Wong considera que é uma atriz que começou a carreira “tarde”, segundo os padrões de um meio onde há quem saiba que quer ser ator desde os cinco anos. “Às vezes penso que gostaria de ter começado mais cedo. É difícil não me comparar com as pessoas à minha volta.” Mas as pessoas próximas relembram-lhe constantemente o que ela própria vai aprendendo a ver: “Começaste com 21 anos quando acabaste a faculdade e tudo aquilo que fizeste até agora tem sido incrível". E hoje afirma: “Agora percebo aquilo que dizem sobre se fazer uma coisa que se gosta. Eu trabalho porque de facto gosto muito daquilo que faço".