Agência nacional defende que combate pode ser feito com água do mar
Incêndios/Madeira
29 de jan. de 2025, 15:16
— Lusa/AO Online
“Não
compreendo porquê que isso não foi feito”, disse, sublinhando que, na
sua perspetiva, os dois aviões Canadair que atuaram na região deviam ter
carregado água do mar, se tivessem condições para tal.Tiago
Oliveira, que falava na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos,
Liberdades e Garantias, numa audição sobre a gestão dos meios de
proteção civil no incêndio de agosto de 2024 na Madeira, alertou para o
facto de a região enfrentar “desafios extraordinários” ao nível de fogos
rurais, decorrentes das alterações climáticas.“Aquilo
que está em causa sempre, aqui, nos Estados Unidos, em qualquer outro
país, nesta matéria, é a qualidade da decisão, num primeiro nível,
técnica e, num segundo nível, política”, avisou.Também
o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Nunes, ouvido
na mesma comissão, considerou que será “muito difícil” não utilizar
água do mar no combate aos incêndios por meios aéreos na Madeira no
futuro, embora reconheça não ser recomendável do ponto de vista
ecológico e ambiental.“Podemos fazer
outros investimentos, que é ter um conjunto de áreas de retenção de
água, auxiliados por outros meios de combate que não são usados em
Portugal”, explicou, referindo-se à utilização de retardantes e gel,
que, no seu entendimento, só não são usados por “razões economicistas
puras”.António Nunes sublinhou que na
Madeira, como nos Açores e no continente, o combate aos fogos não é
feito com tecnologias mais modernas porque não se quer investir, de modo
que a utilização de água do mar será uma necessidade.No
decurso da audição, o presidente da Agência para a Gestão Integrada de
Fogos Rurais salientou como aspeto negativo o facto de a Madeira não
integrar o Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais, por
recusa das autoridades regionais, vincando que seria uma oportunidade
para ter acesso a “outro conhecimento” e estar ligada a protocolos
internacionais.Tiago Oliveira disse ser
fundamental abordar o tema dos incêndios com estratégia, pois, na sua
opinião, o problema não se resolve com mais meios aéreos (a Madeira
dispõe apenas de um helicóptero), mas também com outro modelo de gestão
florestal e com uma equipa apeada de pelo menos 60 elementos “a
trabalhar 365 dias por ano” em faixas corta-fogo.“Os
incêndios previnem-se durante o inverno, durante a primavera/verão
faz-se a preparação da campanha e depois a gestão dos meios”, alertou,
avisando para o facto de nenhuma ter “capacidade para suster a
circunstância meteorológica”, como o prova os recentes incêndios na
Califórnia, nos Estados Unidos.“A Madeira
também não vai ter no futuro, por mais investimentos que faça na
preparação e na prontidão, donde é muito importante que tenha processos
de apoio em circunstância de emergência com as melhores práticas
internacionais”, defendeu.Já o presidente
da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Nunes, afirmou que, no caso
do incêndio de agosto de 2024, as autoridades regionais deveriam ter
solicitado auxílio externo mais cedo.“Haveria
condições para um apoio diferenciado mais cedo, com outros meios e com
maior eficácia, até porque alguns desses meios vieram-se a revelar cinco
ou seis dias depois”, disse António Nunes.No
decurso das audições, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses e o
presidente da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais
responderam apenas a perguntas formuladas pela deputada socialista Sofia
Canha e pelo deputado do Chega Francisco Gomes, eleitos pelo círculo da
Madeira.No entanto, a deputada do PSD
Paula Margarido, também eleita pelo círculo da Madeira, interveio para
acusar o PS, partido que requereu as audições, de desrespeito pela
Constituição e pela autonomia, realçando que compete à Assembleia
Legislativa da Madeira fiscalizar os atos do Governo Regional e não à
Assembleia da República.A deputada lembrou
ter sido constituída uma comissão de inquérito no parlamento madeirense
com o mesmo objetivo, cujos trabalhos foram suspensos na sequência da
queda do executivo minoritário do PSD, na qual o presidente da Liga dos
Bombeiros Portugueses já foi ouvido, sendo que estava também prevista a
audição ao presidente da Agência para a Gestão Integrada de Fogos
Rurais.“É lamentável que estejamos aqui na
Assembleia da República a gastar meios, quer pessoais, quer
financeiros, numa autêntica duplicação do que se passa na Região
Autónoma da Madeira”, declarou.A mesma
posição foi manifestada pelo deputado comunista António Filipe, que
considerou não haver justificação para a questão do incêndio na Madeira
estar a ser tratada na Assembleia da República.O
incêndio rural deflagrou na ilha da Madeira em 14 de agosto, nas serras
do município da Ribeira Brava, propagando-se progressivamente aos
concelhos de Câmara de Lobos, Ponta do Sol, na zona oeste da Madeira, e
Santana, na costa norte.No dia 26, foi declarado “totalmente extinto”, com mais de cinco mil hectares de área ardida.Segundo
o executivo madeirense, não houve registo de feridos ou da destruição
de casas e infraestruturas públicas essenciais, mas foram atingidas
áreas florestais e pequenas produções agrícolas.