Agência Espacial Europeia abre hoje candidaturas para recrutar novos astronautas
31 de mar. de 2021, 12:21
— Lusa/AO Online
As
vagas para quatro a seis astronautas permanentes e para 20 astronautas
de reserva, incluindo pela primeira vez um astronauta com alguma
deficiência física, mantêm-se abertas até 28 de maio.Desde
2008 que a ESA, da qual Portugal é Estado-Membro desde 2000, não
recrutava astronautas. Agora, fá-lo a pensar em futuras missões à Lua ou
mesmo a Marte e tendo em vista aumentar o número de mulheres no espaço.No
anterior recrutamento, que começou em 2008 e terminou em 2009, a ESA
selecionou seis astronautas, incluindo uma mulher, a italiana Samantha
Cristoforetti, a primeira pessoa a fazer uma café expresso na Estação
Espacial Internacional, na órbita da Terra.A este recrutamento apresentaram-se 8.413 candidatos, dos quais pouco mais de 200 portugueses.À
Lusa, a agência espacial portuguesa Portugal Space indicou, sem
quantificar, ter sido "contactada por diversas pessoas interessadas em
concorrer" ao novo recrutamento."Recebemos
essencialmente pedidos de informação sobre as várias fases do processo,
na maioria relacionados com os exames médicos que são um dos aspetos
fulcrais de qualquer candidatura. Procuramos esclarecer as dúvidas que
nos chegam, porque na verdade é o único contributo que podemos dar",
adiantou, frisando que "o processo de recrutamento de astronautas é um
procedimento internacional conduzido centralmente" pela ESA e "no qual
os Estados-Membros não têm qualquer tipo de intervenção, exceto na
publicitação desta oportunidade".Depois de
validadas as candidaturas apresentadas, segue-se uma seleção dos
candidatos em várias etapas - que incluem testes técnicos, cognitivos,
de coordenação motora e de personalidade, exercícios individuais e em
grupo, provas médicas e entrevistas. Os
"eleitos" serão anunciados em outubro de 2022 se a pandemia da covid-19
não perturbar o processo, que implica diversas deslocações ao
estrangeiro para a prestação de provas. "Temos
de ser honestos, esperamos que apareçam milhares de pessoas. As
hipóteses de sucesso são baixas", admitiu Samantha Cristoforetti,
durante a apresentação da nova campanha de recrutamento de astronautas
da ESA, em fevereiro.Para concorrer, um
candidato tem de reunir vários requisitos mínimos, como ser cidadão de
um dos Estados-Membros ou Estados Associados da ESA, ter pelo menos um
mestrado e experiência profissional de três anos nas áreas das ciências
naturais, medicina, engenharia, matemática ou ciências computacionais,
ser fluente em inglês e conhecer outras línguas não nativas.Mas
há mais: ter forte motivação, capacidade de enfrentar horários
irregulares de trabalho, frequentes viagens e longas ausências de casa,
da família e da vida social habitual, ter calma sob pressão, vontade
para participar em expriências científicas e flexibilidade para
trabalhar num local diferente (dentro e fora da Europa).O
candidato com algum grau de deficiência física pode ser admitido com
uma altura inferior a 1,30 metros, uma ou duas próteses abaixo do joelho
ou ao nível do tornozelo e dismetria (diferença de comprimento entre
pernas).Por último, e não menos
importante, é necessário submeter uma carta de motivação e um currículo
em inglês e um certificado médico europeu emitido por um examinador
médico da aviação, o equivalente ao que é exigido a um piloto de um voo
particular.Para os candidatos que usam por
exemplo uma prótese nos membros inferiores, o certificado exigido é
substituído por uma declaração médica a atestar, que se não fosse devido
à deficiência de que são portadores, estariam em conformidade com os
requisitos médicos pedidos a um piloto privado.O
médico Pedro Caetano, que adquiriu a competência como examinador pela
Autoridade Nacional de Aviação Civil e pela Agência Europeia para a
Segurança da Aviação, disse à Lusa que já avaliou vários candidatos,
tanto homens como mulheres. Nem todos ficaram aptos nos exames médicos,
mas o saldo é, em geral, positivo.Os
exames consistem, na prática, num "check-up" médico completo, que atesta
que a pessoa é saudável e inclui análises ao sangue e à urina,
eletrocardiograma, audiograma, rastreio oftalmológico e avaliação
psiquiátrica, entre outros, enumerou.No fim, após uma consulta, o médico declara o candidato apto, inapto ou apto com limitações.O
uso de óculos de "correção visual" não é um fator impeditivo para o
candidato ser declarado como apto, sublinha Pedro Caetano, com formação
técnica na ESA e na congénere norte-americana NASA, mas vai constar como
uma limitação no certificado médico, tal como o uso de uma prótese
auditiva.Já uma doença de alto risco como o tromboembolismo é considerada um fator de inaptidão.Ter
o certificado médico de aptidão de piloto privado pressupõe que a
possibilidade de ocorrer uma doença ou uma incapacidade súbita em
trabalho de voo "não pode ser superior a um por cento" por ano,
assinalou Pedro Caetano, que coordena a Unidade de Medicina Aeronáutica
do Instituto CUF Porto.O médico frequentou
em 2019 um curso de formação em medicina espacial no Centro Europeu de
Astronautas da ESA, em Colónia, na Alemanha, onde se treinam os
astronautas para missões na Estação Espacial Internacional e onde teve
"a oportunidade de assistir ao desenhar do processo de recrutamento que
vai agora iniciar-se"."Por isso, estou
muito por dentro dos critérios exigidos", acentuou Pedro Caetano,
acrescentando que, numa fase mais avançada, após a aprovação nos testes
psicológicos, profissionais e psicotécnicos, os candidatos "serão
novamente submetidos a provas médicas", mas "mais exigentes e com um
nível de complexidade superior". Nestas provas, o médico português já
não tem intervenção.Não sendo a idade um
entrave para um candidato, a ESA vê-se, no entanto, obrigada a fixar o
limite nos 50 anos para que cada astronauta recrutado possa cumprir
pelos menos duas missões antes da reforma.Fundada
em 1975, a ESA promoveu a sua primeira campanha de recrutamento de
astronautas em 1978, com a seleção dos três primeiros astronautas.
Depois disso, realizaram-se mais três campanhas, a mais recente em 2008.O
novo processo de recrutamento que hoje se inicia prevê a seleção de
quatro a seis pessoas para a equipa permanente de astronautas da agência
e um máximo de 20 pessoas para fazerem parte de uma reserva, incluindo
um 'parastronauta'.Com o programa
'Parastronauta', a ESA pretende estudar as condições e tecnologias que
garantem missões seguras também a pessoas com deficiência.Aos
quatro a seis candidatos recrutados, que ingressam na ESA como
astronautas de carreira, será proposto um contrato de trabalho com a
duração inicial de quatro anos.Pela
primeira vez, a ESA vai estabelecer uma reserva de astronautas, composta
por candidatos que não foram recrutados mas que foram igualmente
bem-sucedidos em todo o processo de seleção. Apesar de não terem um
contrato de trabalho com a ESA, podem ser convocados para missões
espaciais específicas, pelo que mantêm um certificado médico anual e
beneficiam de treinos sobre os programas da agência.Atualmente,
o corpo ativo de astronautas da ESA é formado por sete astronautas - de
Itália (2), Alemanha (2), Reino Unido (1), Dinamarca (1) e França (1).