Advogada acredita que ex-'dux´ não será responsabilizado pela tragédia do Meco
14 de abr. de 2021, 11:33
— Lusa/AO Online
“O
depoimento do meu cliente foi condizente com aquele que já foi prestado
durante longas horas no processo de inquérito. O processo foi arquivado e
depois houve instrução e, entretanto, acabou por se confirmar o
arquivamento”, disse Paula Brum aos jornalistas no final da
primeira audiência de julgamento no Tribunal de Setúbal.“Estou
satisfeita porque ele [João Gouveia] esclareceu aquilo que já tinha
sido esclarecido”, acrescentou a advogada, que negou alegadas
contradições do ex-`dux´ da Lusófona nos depoimentos prestados ao
Procurador da República e ao Tribunal de Setúbal, referidas pelo
advogado Vítor Parente Ribeiro.O advogado
que representa as famílias das vítimas considera que o depoimento de
João Gouveia, com “algumas pequenas alterações” face ao que tinha dito
inicialmente ao Procurador da República, “foi mais do mesmo” e diz que
“falta explicar muita coisa” sobre a tragédia de 13 de dezembro de 2013
na praia do Meco, em Sesimbra, no distrito de Setúbal.“Falta
explicar, de facto, aquela questão que ele não explicou, nomeadamente,
como é que são levados os seis por uma onda. E explicar em que termos é
que eles se encontravam colocados para serem levados. E isso ele veio
invocar que não se recordava”, frisou Vítor Parente Ribeiro.Para
o advogado das famílias, falta também perceber “o que é que faz seis
jovens estarem à meia-noite numa praia, numa circunstância em que era
sobejamente conhecido que o mar estava revolto e tinha vagas de mais de
quatro metros de altura”, factos que Vítor Parente Ribeiro acredita
terem acontecido no contexto de uma praxe.“A
própria descrição dos acontecimentos que é feita por João Gouveia
leva-nos a concluir isso. As próprias entregas de ovos, que eram dados
(aos alunos), o próprio ritual que foi feito até a praia, o simples fato
de se ter o cuidado de deixar longe do alcance da água os telemóveis, o
tabaco”, são outros factos que, na opinião do advogado, contribuem para
reforçar esta convicção de que se tratou de uma praxe em que não foram
tidas em conta as questões de segurança.Para
Vítor Parente Ribeiro, também é surpreendente, e nada verosímil, a
descrição de João Gouveia sobre o momento em que os sete elementos do
grupo foram arrastados por uma onda e da forma como o próprio, João
Gouveia, terá conseguido voltar a terra firme.“Como
é que alguém que está no meio do mar, com ondas de quatro metros,
consegue ouvir colegas a gritar por socorro, consegue tirar uma capa que
tem à volta do pescoço, consegue ir tentar socorrer outra pessoa,
agarrando-lhe até no pulso e, ao mesmo tempo, não perde o controlo sai
da água e vai direitinho ao local onde tem o telemóvel”, questionou.“São
os especialistas que dizem: o local onde os jovens foram atingidos era
uma zona de bueiro, era uma zona onde quem caísse à água naquele momento
não tinha qualquer hipótese de sobrevivência porque as correntes eram
fortíssimas. E depois a própria rebentação das ondas provocava, em muito
dos casos, morte instantânea. Acho que não faz sentido nenhum”, disse.As
famílias dos seis jovens falecidos interpuseram seis ações cíveis em
2016, contra o ex-‘dux’ João Gouveia e a COFAC – Cooperativa de Formação
e Animação Cultural, CRL (Universidade Lusófona).Em
cada uma das seis petições iniciais (PI) é pedida uma indemnização de
cerca de 225 mil euros, o que perfaz um valor global que ronda um milhão
e 350 mil euros.