Admissão de projeto de lei do Chega em dúvida devido a inconstitucionalidade
23 de set. de 2020, 11:29
— Lusa/AO Online
O presidente da Assembleia da República, Ferro
Rodrigues, pediu um parecer à comissão de Assuntos Constitucionais
sobre o projeto poder ser admitido e hoje, por unanimidade, os deputados
aprovaram um texto que conclui pela sua inadmissibilidade por violar
dois artigos da Constituição Portuguesa.O
parecer segue, agora, para o gabinete de Ferro Rodrigues, que decidirá
se o projeto de lei será ou não admitido pela mesa da Assembleia da
República.O deputado do Chega, André
Ventura, não esteve presente na reunião de hoje da comissão de Assuntos
Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.O
parecer, elaborado pela deputada do PSD Mónica Quintela, conclui que a
iniciativa de André Ventura colide com o artigo 50.º que estatui que
"todos os cidadãos têm o direito de acesso, em condições de igualdade e
liberdade, aos cargos públicos".O projeto,
ainda segundo o parecer, contraria o artigo 18.º segundo o qual uma lei
"só pode restringir os direitos, liberdades e garantias nos casos
expressamente previstos na Constituição, devendo as restrições
limitar-se ao necessário para salvaguardar outros direitos ou interesses
constitucionalmente protegidos".Todos os
grupos parlamentares presentes (PS, PSD, BE, PCP e CDS) se manifestaram a
favor do parecer e pela inconstitucionalidade da lei proposta pelo
Chega. "Padece de uma desconformidade
constitucional", segundo Cláudia Santos, do PS, é de
"inconstitucionalidade grosseira e intransponível" na discussão na
especialidade, de acordo com José Manuel Pureza, do BE, e de
"inconstitucionalidade irremediável", nas palavras de António Filipe, do
PCP.Ao contrário do que já aconteceu com
outros projetos, que levantaram dúvidas de constitucionalidade, e foram
admitidos, neste caso Mónica Quintela, com o apoio das restantes
bancadas, considerou que o problema não é passível de ser resolvido numa
eventual discussão na especialidade.Porque
o objeto do diploma é, por si, a fonte do problema de
constitucionalidade - limitar o exercício dos cargos de
primeiro-ministro, ministros e secretários de Estado "apenas a
indivíduos portadores de nacionalidade portuguesa originária", a exemplo
do que acontece com o Presidente da República.Adiada
foi, também, a discussão do parecer sobre a admissibilidade de outro
projeto do Chega, este para estabelecer "um número máximo de ministros
no Governo", da autoria de Pedro Delgado Alves, do PS, que também
levanta dúvidas de constitucionalidade aos deputados.Na
reunião foi aprovada, por unanimidade, a audição, pedida pelo PSD, da
ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, sobre a nomeação de José
Guerra para procurador europeu, considerando "censurável" que o Governo
não tenha indicado o candidato mais bem classificado no concurso de
seleção.