Administração diz que atual AE “torna impossível” que tripulantes voem 900 horas/ano
TAP
14 de nov. de 2022, 13:50
— Lusa/AO Online
“A
TAP regozija-se por verificar que o SNPVAC [Sindicato Nacional do
Pessoal de Voo da Aviação Civil] também entende que é possível e
desejável que os tripulantes de cabina possam voar 900 horas por ano”,
sustenta a administração liderada por Christine Ourmières-Widener numa
mensagem enviada a estes trabalhadores, a que a agência Lusa teve
acesso.A Comissão Executiva salienta,
contudo, que “a realidade […] é que existem muitas cláusulas no Acordo
de Empresa [AE] e no RUPT (Regulamento de Utilização e Prestação de
Trabalho) em vigor que tornam impossível que isso aconteça na prática”.“É
precisamente para rever esse tipo de cláusulas e permitir que os
tripulantes da TAP possam efetivamente voar tanto quanto os seus colegas
da maioria das companhias com que a TAP concorre diretamente que a
empresa abriu as negociações com o SNPVAC tendo em vista a celebração de
um novo Acordo de Empresa. Acreditamos que o acordo será alcançado
através do diálogo e que a versão final será diferente da proposta
inicial de base que a TAP apresentou”, sustenta.Citando
dados deste ano, a administração da TAP diz que, na realidade, “10% dos
tripulantes da companhia fazem menos de 66 horas de voo por ano, 25%
fazem menos de 427 horas, 50% fazem menos de 584 horas e apenas 25%
fazem mais de 667 horas de voo por ano".“E
isto não é assim devido a falhas de gestão, mas sim porque o AE e o
RUPT que dele decorre são totalmente desajustados e desadequados à
realidade operacional da companhia”, refere, considerando que “isto não é
surpreendente num acordo assinado em 2006 e nunca revisto”.Em
causa estão, segundo a Comissão Executiva, “cláusulas como a que limita
o Período de Serviço de Voo (PSV) a 06:30 [seis horas e trinta minutos]
quando se verifica o despertar em período crítico fora da base, a que
diz que a realização de quatro setores no mesmo dia obriga a folga,
independentemente do tempo trabalhado, ou as que obrigam a folga
obrigatória após voo de longo curso ou após voo noturno”.De
acordo com a administração, estas cláusulas “retiram, na prática, a
possibilidade de planear os tempos de trabalho de modo a que todo o PNC
[pessoal navegante comercial] tenha horas de voo anuais semelhantes e
leva à disparidade de tempos de trabalho indicadas”.“Na
verdade, o AE e o RUPT em vigor na TAP obrigam a períodos de descanso e
a dias sem atividade bem acima do limite regulado pelo regulamento
europeu”, argumenta, acrescentando que “estes problemas são agravados
por índices muito elevados de absentismo, sobretudo em períodos de pico
de operação, durante os quais um grupo pequeno de tripulantes trabalham
muito e muitos tripulantes voam menos horas do que seria necessário e
desejável”.Segundo sustenta a TAP, “se os
tripulantes de cabina quiserem, com um Acordo de Empresa revisto e
adequado que permita voar em média mais horas do que na atualidade,
todos ganham, começando pelos próprios tripulantes, que poderão atingir
níveis remuneratórios superiores aos que tinham mesmo antes dos cortes
salariais decorrentes dos acordos de emergência”.“Para
se garantir o futuro da TAP, esta impossibilidade prática de realização
de mais horas de voo tem de ser eliminada e os tripulantes são parte
ativa da negociação para que se alcance um acordo em que todos possam
ganhar”, reitera.Afirmando-se convicta
que, “com bom senso e com vontade de construir um novo futuro”, será
possível, “em conjunto, criar um Acordo de Empresa mais moderno, mais
claro e com ganhos de produtividade e remuneratórios, respetivamente
para a TAP e os tripulantes”, a administração garante que “está, como
sempre, aberta ao diálogo”.Num comunicado
divulgado no sábado, o SNPVAC acusou a TAP de desconhecer o atual AE,
destacando que desde 2006 que os tripulantes da TAP “podem voar 900
horas por ano” e sustentando que “o facto de esse número não ser
atingido se deve única e exclusivamente à incompetência na gestão mensal
e diária dos tripulantes e da operação no geral”. Este
comunicado seguiu-se a declarações do administrador com o pelouro
financeiro da TAP (CFO), Gonçalo Pires, que, em entrevista à Lusa,
garantiu que “todos os tripulantes de cabine da TAP podem vir a ganhar
mais do que ganhavam em 2019”, mas que para isso têm de “trabalhar
mais”.“Nós temos todos que ser mais
produtivos, incluindo os tripulantes de cabine. Na British Airways podem
trabalhar até 900 horas por ano. Porque é que na TAP só se pode
trabalhar até 600?”, questionou. Citando
um estudo efetuado por uma consultora para a companhia, o gestor referiu
que, “para as duas grandes categorias profissionais de tripulantes de
cabine, na do comissário assistente na TAP ganham 25% mais, já depois
dos cortes salariais, e no caso do topo da carreira, dos supervisores de
cabine, 50% mais” do que na British Airways.Na opinião do CFO da TAP, os atuais acordos “são antigos” e “fora de prazo”, sendo preciso ajustá-los “aos tempos modernos”.