Ponta Delgada adere à manifestação pelo direito à habitação estão “a crescer”
2 de mar. de 2023, 17:36
— Lusa
“Há coletivos a
aderir em Lisboa, há coletivos que estão a aderir no Porto, talvez
Coimbra também se venha a juntar. Nos Açores, Ponta Delgada já disse que
também se quer juntar”, disse à Lusa Rita Silva, uma das cinco
porta-vozes, todas mulheres, da manifestação “Casa Para Viver”, agendada
para 1 de abril em vários locais.Depois
do movimento Vida Justa ter levado milhares de pessoas à rua, no passado
sábado, contra a subida de preços e a descida dos salários, “era
importante realizar uma manifestação específica sobre habitação”, porque
“é uma das questões mais determinantes neste momento na vida das
pessoas”, assinala a ativista.As várias
manifestações marcadas para o dia 1 de abril – que juntam uma rede de
coletivos e ativistas – vão decorrer na semana de ação europeia pelo
direito à habitação.“O problema da
habitação está a agravar-se no mundo inteiro. Vivemos num sistema em que
as pessoas com dinheiro ou a finança estão a aplicar os seus excedentes
financeiros em habitação, para obter rendimentos cada vez mais altos, o
que gera um processo inflacionário”, explica Rita Silva, lamentando que
a habitação se tenha transformado num ativo financeiro.Face
à “situação completamente insustentável” da habitação em Portugal, os
coletivos querem mostrar ao Governo que “as medidas que estão a ser
anunciadas para promover uma certa acalmia social” não estão a surtir
efeito. “Só quando, efetivamente, as
pessoas tiverem casa para viver de forma digna, adequada e a preços
razoáveis é que as pessoas deixam de ir para a rua”, vinca Rita Silva.Sobre
as medidas do Programa Mais Habitação, recentemente anunciado pelo
Governo, a ativista lembra que “a maior parte já existe” e “não tem
vindo a resultar”, denunciando “uma espécie de ‘rebranding’”.O
arrendamento forçado, para ocupar as casas que estão vazias, é “mais
uma medida de propaganda política do que uma coisa que, efetivamente, vá
acontecer”, considera, antecipando “múltiplas exceções”.A
novidade é a transferência dessa competência das autarquias para o IHRU
(Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana), que “tem recebido,
nos últimos tempos, tantas competências que não tem conseguido
acompanhar” com meios e recursos.Trata-se de um “jogo político que se alimenta mutuamente”, diz Rita Silva.“Por
um lado, o Governo, que anuncia medidas, de alguma forma fingindo que
vai resolver o problema da habitação (…) e, por outro lado, o lado da
propriedade e da direita a fazer um grande drama, de alguma forma
alimentando o jogo do Governo fingindo que as medidas são medidas
fortes”, afirma.Criticando os “enormes
incentivos fiscais aos proprietários para tentar convencê-los a arrendar
as casas”, a ativista observa que “o mercado da habitação não funciona
como outro mercado qualquer, como o das batatas ou do arroz, em que o
aumento da oferta no mercado baixa os preços”.Sobre
o anunciado apoio às rendas (até 200 euros), Rita Silva recorda que,
durante a pandemia de covid-19, medidas semelhantes assentaram num
“número tão grande de critérios que ninguém cabia naquela malha”. Em
alternativa, o movimento de coletivos defende que “é preciso acabar com
os incentivos que o Estado dá à especulação imobiliária”.Além
disso, “tem que deixar de ser tabu neste país falar na regulação das
rendas”, frisa, recordando que a habitação é um bem essencial.“As
rendas têm de ser baixadas e colocadas a níveis que sejam razoáveis
para toda a gente”, realça, acrescentando que “também é preciso regular o
preço dos solos”.Rita Silva não está
convencida de que os vistos ‘gold’ vão mesmo acabar, como anunciado pelo
Governo, e acrescenta que é preciso acabar com os incentivos a
residentes não-habituais, nómadas digitais e fundos de imobiliário, bem
como reduzir os apartamentos turísticos, “a par do desenvolvimento de
habitação pública, social e cooperativa, o que vai demorar bastante
tempo”.Enquanto isso não acontecer, as
pessoas “só devem parar de protestar, de se mobilizar e de se manifestar
quando sentirem realmente uma melhoria concreta nas suas próprias
vidas”.