ACT recebeu 3480 queixas de assédio no trabalho mas apenas aplicou 20 sanções
Hoje 11:24
— Lusa/AO Online
Ao jornal, a ACT admite que os
pedidos podem, nalguns casos, “não corresponder à realidade”, lembrando
que estudos anteriores apontam para uma subnotificação dos casos de
assédios laboral.Por exemplo, em maio de
2025, um inquérito do Laboratório Português de Ambientes Saudáveis
mostrava que 27,7% dos trabalhadores diziam ter sido vítimas de assédio
laboral no ano anterior, o que equivale a dizer que quase três em cada
10 dos 3800 profissionais inquiridos se declaravam alvo de alguma forma
de abuso físico ou psicológico.Na altura,
em declarações à Lusa, a coordenadora do estudo, a psicóloga Tânia
Gaspar, revelou que “os dados vão de 15% a 36%”, consoante as empresas,
valores que preocupam os investigadores, que dizem que o facto de se
falar mais no tema leva as pessoas a estarem mais atentas e sugerem
entidades externas de arbitragem.“Para
algumas gerações, isto era comum e a pessoa nem percebia bem se nalguns
casos era normal”, disse a responsável, lembrando que, quando se fala de
assédio laboral, não se está a falar apenas em assédio sexual: “Há
coisas muito mais subtis”, como o facto de o trabalhador ser “posto de
lado”, exemplificou.No Público, a
discrepância entre denúncias e sanções é atribuída à dificuldade de
comprovar os fatos alegados, especialmente em situações sem evidências
concretas, como mensagens escritas ou a ausência de testemunhas. Em
declarações ao jornal, a presidente da Comissão para a Igualdade no
Trabalho e no Emprego (CITE), Carla Tavares, lembra que “subsiste o
receio de represálias e de algum tipo de sanção por parte da entidade
empregadora” e defende que o assédio devia ser criminalizado e mais
gravemente punido “pelo efeito dissuasor” que tal acarretaria.A
responsável defende igualmente mudanças na forma como decorrem os
processos de averiguação do assédio em meio laboral por entender que,
enquanto a averiguação estiver dependente da própria instituição ou
entidade empregadora, “o resultado pode ser enviesado”.Em
declarações ao Público, Anália Torres, coordenadora do último grande
estudo para traçar a radiografia dos diferentes tipos de assédio no
contexto laboral, feito em 2016, defende a necessidade de atualizar os
dados, lembrando que, neste hiato temporal, aconteceu o movimento MeToo,
que impôs nos media a discussão dos temas associados ao assédio e à
violência sexual.O Público destaca ainda a
necessidade de atualizar a lista de doenças profissionais, que não é
revisada desde 2007, para incluir condições como depressão e ‘burnout’,
permitindo estabelecer nexo entre o assédio e a doença para se poder
imputar aos patrões o custo das doenças decorrentes do assédio.