ACT identificou 23 casos por desrespeito da lei da amamentação desde 2021
7 de ago. de 2025, 11:27
— Lusa
Apenas
no ano de 2023 não houve qualquer empresa autuada, mas houve sempre
advertências por “infrações aos normativos legais”, revelou hoje à Lusa a
ACT, salientando que os números de 2024 e deste ano ainda são
provisórios.Em causa estiveram três
alíneas do artigo 47º do Código do Trabalho que define as condições para
a dispensa para amamentação para a mãe ou aleitação para o pai.A
1.º alínea define que a “mãe que amamenta o filho tem direito a
dispensa de trabalho para o efeito, durante o tempo que durar a
amamentação”, mas a ACT confirmou que algumas empresas não cumpriram
esta regra e por isso avançou com cinco autuações e oito advertências
nos últimos cinco anos.Outra das infrações
identificadas prendeu-se com a alínea que define que “a dispensa diária
para amamentação ou aleitação é gozada em dois períodos distintos, com a
duração máxima de uma hora cada, salvo se outro regime for acordado com
o empregador”, tendo resultado em cinco autuações e quatro
advertências. Também houve uma empresa que
em 2023 foi advertida por não estar a cumprir corretamente a redução do
tempo da licença para casos em que um dos progenitores trabalha a tempo
parcial: “A dispensa diária para amamentação ou aleitação é reduzida na
proporção do respetivo período normal de trabalho, não podendo ser
inferior a 30 minutos”, lê-se no diploma que está a ser revisto pelo
Governo.O Governo aprovou no final do mês
passado em Conselho de Ministros várias alterações à Lei do Trabalho,
nomeadamente no que toca à licença para a amamentação. Atualmente,
não existe um limite temporal para amamentar, mas o executivo quer
limitar até aos dois anos e idade e exigir a apresentação, de seis em
seis meses, de um atestado médico.Em
entrevista à TSF e ao Jornal de Notícias, a ministra do Trabalho,
Solidariedade e Segurança Social disse haver abusos por parte de algumas
trabalhadoras que usavam de forma abusiva a licença para amamentar para
trabalhar menos horas.As declarações
foram fortemente contestadas por associações e sindicatos que defenderam
que o problema não estava nas mulheres mas sim nos empregadores,
garantindo que ainda hoje existem muitas trabalhadoras que não usam a
redução de horário por temer represálias.A
Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE) recebeu este
ano apenas uma queixa “feita por uma mulher referente à violação do
direito de dispensa para a amamentação", mas não recebeu qualquer
denúncia por parte da entidade empregadora de trabalhadoras que estariam
a abusar desse mesmo direito, contou à Lusa a presidente da CITE, Carla
Tavares.Os sindicatos dizem que estes
números não são representativos do que se passa nas empresas e garantem
que “continuam a receber relatos” de problemas que acontecem um pouco
por todo país, em especial nos trabalhos com maior presença de mulheres,
como o setor da saúde, restauração, comércio ou da indústria. “Tivemos
vários exemplos de limitações e até situações extremas” de
trabalhadoras impedidas de usar a licença de amamentação, disse à Lusa
Fátima Messias, coordenadora para a Comissão de Igualdade entre Mulheres
e Homens da CGTP-IN.A sindicalista
admitiu não ter dados sobre queixas, mas garantiu que “o direito à
amamentação ou à aleitação continua a ser um direito muito pressionado
pelas entidades patronais”, o que leva muita mulheres a desistir ‘a
priori’ de um direito previsto na lei.“As
situações do assédio laboral acabam por criar limitações, intimidações e
auto-condicionamentos por parte de muitas trabalhadoras”, alertou
Fátima Messias, reconhecendo que estas situações dependem muito das
mentalidades de quem gere as equipas.“Quando
se trata de rentabilizar o pouco pessoal que se tem, atira-se por terra
direitos essenciais para as crianças e para as mães”, acusou.Fátima
Messias considerou que a legislação ainda em vigor “é positiva em
matéria de maternidade e paternidade” e que não deve ser alterada, uma
vez que “o direito da amamentação para a mãe e da aleitação para o pai
já está devidamente clarificado”.“O
problema são as violações, porque é que o Governo, em vez de atacar as
violações patronais e as limitações, ataca as mães e as crianças? É uma
coisa desumana, absurda, maquiavélica. Sabe-se que há violações, sabe-se
que há mulheres que são pressionadas, grávidas que são despedidas, mas
em vez de atacar os infratores, atacam-se as grávidas e as crianças”,
sublinhou.