ACRA quer plataforma alargada para queixa na UE sobre transportes
Hoje 09:44
— Daniela Arruda
O elevado custo de vida nos Açores incentivou a ACRA - Associação de
Consumidores da Região Autónoma dos Açores a reunir com vários setores
para preparar uma possível queixa junto da Direção-Geral da Concorrência
da União Europeia.A associação considera que custos dos transportes
marítimos e aéreos prejudicam, há muitos anos, empresas, agricultores e
consumidores, o que leva ao aumento dos preços na Região. E é
precisamente essa realidade que quer dar a conhecer à União Europeia
(UE).Foi por isso que a ACRA reuniu ontem com Jorge Rita, presidente
da Associação Agrícola de São Miguel, uma reunião que define como
“exploratória”, para unir forças antes de avançar com a eventual queixa.
À saída da reunião, Mário Reis, presidente da ACRA, explicou que o
objetivo é criar uma plataforma alargada para depois enviar a Bruxelas.“Se
criarmos uma plataforma onde estejam incluídos a lavoura, a Câmara de
Comércio e Indústria, os serviços, a hotelaria... onde toda a gente
esteja envolvida, tem um peso que obriga a UE a olhar para o nosso
problema com outros olhos”, reforçando a ideia de que caso a queixa seja
apresentada apenas pela associação não suscita tanta pressão em
Bruxelas.Segundo a ACRA, os custos elevados dos transportes não são
de agora e nem são apenas consequência da inflação. O problema existe há
vários anos e não tem sido devidamente valorizado pela maioria dos
consumidores e contribuintes, diz Mário Reis. Assim, o que está a
acontecer hoje é apenas uma aceleração dos efeitos desse mesmo
problema, o que torna ainda mais urgente encontrar soluções para o
funcionamento dos portos e aeroportos da Região.“O preço de um
contentor de Lisboa para Ponta Delgada ou para a Praia da Vitória pode
custar entre duas a quatro vezes mais o metro cúbico do que o contentor
que vai de Lisboa, do Porto, de Leiria, para o Rio de Janeiro”,
exemplifica Mário Reis.Quando questionado se os custos têm vindo a
aumentar, responde que sim, mas que esse não é o busílis da questão. Na
sua perspetiva, o que mais pesa é “esse custo ser enorme e disparo”. E,
por isso, sublinha que estas situações acabam sempre por prejudicar
quem compra: “Quando já não há mais margem, a corda rebenta para o lado
mais fraco, que é o consumidor”, defende.Além dos transportes, a
ACRA fala de outro problema que considera ser estrutural: o monopólio
dos combustíveis usados na produção de energia elétrica. Segundo Mário
Reis, este custo tem impacto na economia regional e afeta o comércio, a
indústria, os transportes, as infraestruturas e os serviços. Como
consequência, as empresas perdem a competitividade e o custo de vida
aumenta. Tendo em conta o cenário, a ACRA defende que se deve agir
rapidamente e admite que quem não acompanha este processo politicamente
tem responsabilidades: “É preciso reduzir de forma drástica, acabar com
os cartéis, acabar com os monopólios”, acrescentando que “é preciso
iluminar o próprio governo... se o governo e os partidos não quiserem
mexer-se, hão de ser julgados por isso”.Associação Agrícola tem as mesmas preocupaçõesApesar
de a Associação Agrícola não ter dados que permitam quantificar o
impacto destes custos na lavoura ou estimar quanto poderia baixar a
fatura do consumidor, Jorge Rita confirma que partilha as mesmas
preocupações da ACRA. O presidente defende também que o peso dos
transportes na economia açoriana não é um problema de agora e que tem
penalizado a Região ao longo do tempo, sobretudo nas exportações e
importações.“Aquilo que eu tenho dito, há muitos anos, é que o que
onera a Região Autónoma dos Açores, na exportação e importação, tem a
ver com os transportes”. Assim, Jorge Rita explica que estes custos
tiram competitividade às empresas e acabam por ser pagos pelos
consumidores: “Por isso é que temos o cabaz mais caro do país”,
conclui.