ACRA denuncia alegadas irregularidades no mercado imobiliário
Hoje 08:54
— Filipe Torres
A Associação dos Consumidores da Região dos Açores (ACRA) denuncia
alegadas irregularidades no mercado imobiliário do arquipélago. Num
comunicado enviado à redação, a associação refere que o setor vive um
“período de expansão sem precedentes”, mas alerta que esse crescimento
tem sido acompanhado por comportamentos que classifica como
“predatórios”, sobretudo ao nível da mediação imobiliária.De acordo
com a ACRA, têm sido identificadas situações em que mediadores recorrem à
sobrevalorização artificial de imóveis como forma de atrair clientes e
acelerar vendas. A isto soma-se, em alguns casos, a omissão de
informações relevantes sobre os imóveis, o que pode induzir compradores e
proprietários em erro. A associação considera que estas práticas
poderão enquadrar-se no crime de burla, previsto na lei penal.Outro
dos principais problemas apontados prende-se com a ausência do
certificado de infestação por térmitas, documento obrigatório em várias
ilhas dos Açores. A ACRA denuncia que este requisito legal tem sido
ignorado em algumas transações, colocando em risco os compradores, que
podem adquirir imóveis com danos estruturais ocultos.ACRA alerta para alegadas tentativas de contornar fiscalização regionalA
associação alerta ainda para alegadas tentativas de contornar a
fiscalização regional, através da formalização de negócios em
conservatórias fora do arquipélago. Segundo a ACRA, esta prática
fragiliza a segurança jurídica e pode levar à validação de contratos em
desconformidade com a legislação aplicável.De acordo com a
associação, do ponto de vista legal, a omissão de informações
essenciais, como a existência de pragas ou defeitos estruturais, pode
tornar os contratos anuláveis ou mesmo nulos, dando aos compradores o
direito de reverter o negócio e exigir indemnizações.“Temos detetado
uma prática corrente e alarmante: a formalização de vendas onde este
certificado é convenientemente “esquecido”, muitas vezes com a
complacência de registos efetuados em conservatórias do continente para
contornar a fiscalização açoriana. Esta “circularidade documental” é um
atentado à certeza e segurança jurídica. A omissão dolosa deste vício
oculto por parte de um profissional da mediação fere o negócio de
anulabilidade ou nulidade (Art. 247.º e 251.º do Código Civil). O
consumidor que adquire um imóvel com vício estrutural ocultado tem o
direito de “desfazer tudo”, exigindo a restituição integral e a
responsabilização civil e criminal do mediador e demais intervenientes,
por violação dos deveres de diligência inerentes ao exercício das suas
funções, aferidos segundo o critério do bonus pater familias”, lê-se na
nota de imprensa.Associação defende maior fiscalização dos bancosNo
comunicado, a ACRA aponta também responsabilidades a outras entidades,
nomeadamente ao Banco de Portugal, defendendo uma maior fiscalização das
instituições financeiras que concedem crédito à habitação, e aos
conservadores e notários, que têm o dever de garantir a legalidade dos
atos que formalizam.A associação sublinha que a intervenção de
mediadores profissionais transforma muitas destas operações em relações
de consumo, o que implica obrigações acrescidas de transparência e
diligência.A ACRA garante que irá apoiar consumidores lesados, quer
na análise da legalidade dos contratos, quer no encaminhamento de
denúncias junto das autoridades competentes.“Não permitiremos que a
mediação imobiliária seja uma “zona franca” de impunidade. Onde houver
uma térmita escondida por um silêncio criminoso, ou um CPCV assinado sob
pressão e ocultação de factos, a ACRA atuará. Apoiaremos os lesados na
identificação da ilicitude, na arguição da nulidade dos contratos e no
encaminhamento das queixas-crime junto do Ministério Público”,
acrescenta.A entidade apela à moralização do mercado imobiliário nos
Açores, sublinhando que a proteção do património das famílias não pode
ser comprometida. A ACRA afirma ainda que “a presunção de inocência,
pilar do Estado de Direito, não é um escudo para a rapina patrimonial” e
defende a responsabilização de todos os intervenientes - ‘do agente que
“bate à porta” ao banco que financia a ilusão’ - como ponto de partida
para a moralização do setor.