Açorianos preocupados com “subida fatal” dos combustíveis a partir de sexta-feira
Hoje 16:28
— Lusa/AO Online
A
grande procura de combustíveis tem originado a formação de filas e
longos períodos de espera nos postos de venda de combustível, havendo
funcionários que se queixam de que nem conseguem “ir à casa de banho”.A
agência Lusa fez uma ronda por postos de combustíveis das ilhas de
São Miguel, Terceira e Faial, onde constatou cenários idênticos: longas
filas de espera e preocupações pelos aumentos da gasolina (21,7
cêntimos na de 95), gasóleo (36,3 cêntimos) e gás doméstico (36,9
cêntimos o quilograma).A “corrida” aos postos de combustíveis açorianos começou na quarta-feira, quando se soube que os preços iriam subir.O
movimento tem sido praticamente constante e idêntico em todos os postos
de abastecimento da região, havendo casos em que funcionários das
caixas de pagamento “nem têm tempo para comer ou para ir à casa de
banho”, como acontece no posto de abastecimento da Ribeira Seca, Ribeira
Grande, São Miguel.A funcionária Georgina
Rodrigues contou à agência Lusa que “não há mãos a medir” para uma
situação que acontece pela primeira vez, pois “nunca houve uma subida de
preços tão grande”.“Os clientes estão a
queixar-se de que é um aumento muito grande e não ganham para
combustíveis”, disse, explicando que a gasolina e o gasóleo ainda não
faltaram, mas o gás doméstico “já é pouco”.No
exterior do estabelecimento, após abastecer o carro com 50 euros de
gasolina, Luís Ferreira vaticinou que “isto ainda vai acabar mal” e as
pessoas “ainda vão acabar por andar a pé ou de bicicleta”.Paulo
Garcia, que abastecia a viatura de serviço com gasóleo “a mando do
patrão”, contou que este pediu-lhe para prover o depósito antes da
subida.A nível particular, não se mostrou
muito preocupado com os aumentos da gasolina e gasóleo, porque tem um
carro elétrico e uma moto, mas receia que a situação “afete tudo”.Ainda
na Ribeira Grande, Carla Santos foi colocar combustível no carro, mas
não atestou “porque anda pouco” e considerou os aumentos “um absurdo”.No
vizinho concelho da Lagoa, nas bombas de combustível do centro da
cidade, na hora de almoço, “acotovelavam-se” 12 carros entre o acesso ao
serviço e a estrada, ocupando uma das faixas de rodagem e causando
contratempos na fluidez rodoviária.Um após o outro, os condutores pagavam com cartão, abasteciam e seguiam viagem, com algum “alívio na carteira”.“Atesto
sempre no final do mês e foi o que fiz hoje. Como os aumentos entram em
vigor amanhã, ‘mato’ dois ‘coelhos’ de uma vez: atesto e poupo entre 15
a 20 euros”, disse Eduardo Soares.Já Adelaide Mendes declarou à Lusa, enquanto esperava pela vez para encher o depósito do carro, que hoje poupava “18 euros”.Os
novos preços dos combustíveis originam uma “situação complicada para
toda a gente”, disse, indicando não ter memória “de uma coisa assim nos
Açores, em que o gasóleo ficou mais caro que a gasolina”.“Espero
que isto não dure muito tempo e que o Governo Regional reveja
semanalmente os preços, porque se assim fosse, não se verificava este
aumento”, afirmou, numa opinião comungada por Paulo Picanço, ao afirmar
que o executivo “podia tomar outras medidas para ajudar” os açorianos.Na
via rápida de ligação Lagoa - Ponta Delgada, onde se situam três bombas
de combustíveis, pelas 14h00, apenas
numa delas o movimento era reduzido, porque estava a ser reabastecida
por um camião-cisterna. Nas outras as filas eram grandes e formadas por
carros ligeiros, camiões, autocarros e carrinhas.Cláudio
Valdão esperava por vez no posto de abastecimento no sentido Lagoa -
Ponta Delgada para atestar o jipe de 1994, “porque pagar dois euros por
cada litro de gasóleo é ‘muita fruta’”.“Não
faço muito uso do carro, às vezes até costumo ir para o trabalho de
bicicleta, mas a partir de agora até vou mais vezes”, admitiu.Por
sua vez, Joana Noia foi de propósito do centro de Ponta Delgada à via
rápida para “tentar abastecer o carro e aproveitar o desconto que tem em
cartão”, depois de essa possibilidade ter sido rejeitada noutra
gasolineira “porque o cartão não funcionava”. “Mesmo que o cartão não
funcione, atesto na mesma, porque nunca vi um aumento desta maneira. É
uma subida fatal."Na ilha Terceira, desde quarta-feira que há filas nas bombas de gasolina, havendo até algumas fora de serviço.Numa
fila para atestar a carrinha, em Angra do Heroísmo, José Codorniz
classificou como “uma loucura” o aumento de preços anunciado.“Não
sei o que é que as pessoas vão comer daqui a dias. A terra é que dá
tudo. Com o gasóleo dessa maneira para trabalhar com máquinas não se
pode”, afirmou o reformado.A situação é
particularmente preocupante “para quem tem ordenados pequenos e tem de
pagar rendas de casa”, alertou, referindo que em 40 litros de gasóleo o
aumento é de quase 15 euros.“Se eu fosse
deputado tinha vergonha de andar na rua, em Portugal todo. Na semana
passada, a gasolina estava a 1,56 euros em Espanha e ao lado a 2 euros.
Onde é que se vê isto? É uma roubalheira”, criticou.Também
a aguardar na fila, que já interrompia o trânsito, Anselmo Falcão
considerou a subida do preço dos combustíveis “demasiado injusta” para
quem precisa de usar carro.“É substancial
para toda a gente e penso que é significativo. Se houvesse outro tipo de
gestão ou de atenuação por parte da governança se calhar era o ideal”,
acrescentou.Com o carro quase na reserva,
Sara Freitas disse aguardar na fila com medo que a gasolina acabasse e
também não poupou críticas à subida dos preços.“Acho
um absurdo, porque está tudo cada vez mais caro e nós não vemos essa
subida de ordenados comparativamente. Como é que as pessoas vão
conseguir pagar as contas?”, questionou.Na
cidade da Horta, na ilha do Faial, o cenário de movimento é idêntico.
Nas bombas de combustível situadas na entrada da cidade, onde o
proprietário chegou numa trotinete elétrica, a Lusa contabilizou, pelas
15h00, uma fila de 22 viaturas.O
taxista Roberto Malhão disse que o “aumento brutal” dos preços dos
combustíveis “vai provocar estragos em várias atividades”, incluindo o
setor dos transportes.Hélio Oliveira
atestou a mota e relatou que na quarta-feira tinha atestado um dos
carros da família para aproveitar que os preços ainda não subiram: “É um
aumento enorme e, por este andar, as pessoas têm de andar a pé”.