"Açores têm de olhar o futuro com uma grande angular"
Barómetro da sociedade
2 de fev. de 2024, 07:07
— AO Online
Tem acompanhado este período eleitoral nos Açores?Sim, mas pelos
jornais tudo fica muito superficial. Na política, os bastidores é que
são o palco e esse palco fica escondido do público. Muito pior se de
permeio ainda se mete a comunicação social. Acrescente-lhe o Atlântico e
imagine o desfasamento resultante quando visto desta margem de cá.Que opinião tem sobre a atual situação política?Comparada
com a dos EUA, muito serena, o que não significa necessariamente limpa.
Isto porque na Europa, por enquanto, a situação encontra-se mais
estável do que por cá, onde as instituições são muito fortes mas também
altamente regulamentadas; e, por isso mesmo, algo morosas no encontro de
soluções para problemas novos, visto que, por tudo e por nada, se
levanta processos no tribunal, por mais frívolos que sejam. Protelam-se
decisões vitais apelando para instâncias superiores.Quem gostaria que vencesse as eleições?Essa
pergunta é capciosa, que é um termo polido para “passar uma rasteira”. O
voto é secreto. Posso apenas dizer que preferiria, se pudesse, votar em
pessoas em vez de em partidos políticos e suas máquinas.Qual deve ser a prioridade da governação?A
política é, em toda a parte, a luta pela divisão das fatias do bolo
coletivo. Nos Açores ainda é mais assim porque, enquanto nos países
desenvolvidos há que produzir o bolo desde os ingredientes até à
confeção final, no arquipélago os ingredientes vêm quase todos de fora.
Localmente, quase só se coze em lume brando, como o cozido das Furnas. Os Açores têm de olhar para o futuro com uma grande angular, de modo a
tornar possível o equilíbrio entre os dois lados da balança: por um
lado, distribuir mais equitativamente as fatias do bolo, contemplando os
menos favorecidos, sem se cair na esmola que favorece a preguiça: por
outro, há que pensar a longo prazo e inventar maneiras de depender menos
da dádiva europeia. Para isso terão de se empenhar na criação de modos
de produzir mais do bolo que o arquipélago consome. É que, se um dia a
Europa deixar de dar leite, as vaquinhas açorianas não vão tê-lo em
quantidade bastante para o bolo coletivo. Um grande problema açoriano (e
em grande parte português) é as pessoas pensarem que quem trata disso é
só o governo (“os políticos”, como se diz na gíria diária). Vota-se
neles e descansa-se por uns quantos anos à espera de que se ocupem
sozinhos de solucionar os problemas da Região. É uma questão de
mentalidade que não se resolve facilmente. Não estou a desculpabilizar
nem a desresponsabilizar o governo ou os políticos; estou só a lembrar
que o voto não é um mandato para os outros trabalharem, enquanto o
cidadão eleitor vai tratar da sua vidinha particular até às eleições
seguintes.