Açores registaram 279 casos de cancro da próstata entre 2017 e 2023
Hoje 19:30
— Filipe Torres
Novembro veste-se de azul nos Açores, numa campanha que procura quebrar tabus, promover a prevenção e salvar vidas. O Novembro Azul é hoje uma referência mundial na sensibilização para o cancro da próstata, uma doença que continua a afetar milhares de homens todos os anos, mas que tem apresentado taxas de cura elevada quando é diagnosticada precocemente.Segundo dados regionais, entre 2017 e 2023 foram diagnosticados 279 novos casos de cancro da próstata nos Açores (uma média de cerca de 40 casos por ano), um número que poderá aumentar nos próximos anos. No entanto, segundo Bárbara Oliveira, médica Urologista do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), este crescimento não significa necessariamente um agravamento da doença, mas antes uma maior capacidade de deteção precoce, resultado direto das campanhas de sensibilização e do maior acesso ao rastreio.A médica explica ao Açoriano Oriental que, apesar dos avanços registados nos últimos anos, ainda existe alguma resistência por parte dos homens à realização dos exames de rastreio, embora a tendência seja de melhoria gradual. O toque retal e a ecografia prostática transretal, sobretudo quando associados a biópsias, continuam a ser os principais motivos de retração, muito por vergonha, constrangimento, medo do diagnóstico e ideias erradas sobre os procedimentos, apesar de serem rápidos, indolores e com elevado valor diagnóstico. Já a análise ao PSA (Antigénio Específico da Próstata) é mais facilmente aceite, mas continua a gerar dúvidas, sobretudo devido à possibilidade de falsos positivos e ao receio da necessidade de exames complementares.A médica sublinha ainda que persistem vários fatores que dificultam o acompanhamento preventivo, como a falta de consultas regulares com o médico de família, a ideia errada de que “se não dói, não há problema”, a menor literacia em saúde em meios rurais e o receio de consequências ao nível da vida sexual. Embora a procura por informação esteja a aumentar, especialmente graças às campanhas de sensibilização, ainda há um caminho importante a percorrer para que o rastreio seja encarado como uma prática natural e regular da saúde masculina.Há vários fatores de riscoAs recomendações apontam para que os homens de risco “normal” iniciem o rastreio aos 50 anos, através da análise ao PSA. Já aqueles com histórico familiar direto (pai ou irmão) devem iniciar a vigilância mais cedo, a partir dos 45 anos. Em situações de mutações genéticas de alto risco, o acompanhamento pode começar ainda mais cedo, por volta dos 40 anos.Entre os principais fatores de risco destacam-se a idade, a hereditariedade, a obesidade, a alimentação rica em gorduras e o sedentarismo. A etnia também influencia o risco, sendo mais elevado nos homens de ascendência africana - e devem fazer a partir dos 45 anos.Um estudo de 2009 indica que os Açores já apresentaram, no passado, taxas de incidência elevadas no cancro da próstata quando comparadas com outras regiões do país. Contudo, há um dado encorajador: a mortalidade por cancro da próstata tem vindo a diminuir, assim como a taxa de sobrevivência aos cinco anos, fruto das novas terapêuticas e do diagnóstico mais precoce.Ainda assim, a região continua a enfrentar dificuldades, nomeadamente pela densidade populacional e dispersão geográfica das ilhas, que dificulta o acesso uniforme aos cuidados de saúde, sobretudo ao nível do apoio psicológico e social aos doentes e às suas famílias.A médica Bárbara Oliveira realça que o acompanhamento do doente oncológico nos Açores é multidisciplinar, envolvendo urologia, oncologia, radioterapia e, nos casos mais avançados, cuidados paliativos. Paralelamente, a Liga Portuguesa Contra o Cancro, através do seu Núcleo Regional, assegura apoio psicológico, social e emocional.O impacto do diagnóstico vai muito além da dimensão física. A ansiedade, o medo, a incerteza quanto ao futuro e os efeitos secundários dos tratamentos, como a disfunção erétil ou a incontinência, afetam profundamente a autoestima e a qualidade de vida dos doentes. “Muitos homens precisam de adaptar os seus objetivos e a sua rotina de vida após o diagnóstico”, realça a especialista.Importância do MovemberO Novembro Azul é assinalado com caminhadas solidárias, ações de rua, campanhas nas redes sociais e iniciativas em contexto desportivo, levando a mensagem a públicos que tradicionalmente se mantêm mais longe dos cuidados de saúde.O símbolo internacional da campanha - o bigode - continua a ser um poderoso instrumento de comunicação. Um gesto simples que chama a atenção e abre espaço à conversa sobre a saúde do homem.A iniciativa tem origem em 2003, na Austrália, e ganhou expressão mundial através do movimento Movember, que promove não só a prevenção do cancro da próstata, mas também a importância da saúde mental masculina.Apesar dos avanços, a especialista adianta que ainda há um longo caminho a percorrer. Muitos homens continuam a adiar consultas, a ignorar exames e a procurar ajuda apenas quando surgem sintomas, muitas vezes já numa fase avançada da doença.“O Movember é mais do que um movimento – é uma oportunidade de mudar a forma como os homens encaram a sua saúde”, conclui Bárbara Oliveira.