Açores registam a segunda taxa de pobreza mais elevada do país
Hoje 09:24
— Lusa/AO Online
O
estudo, elaborado por investigadores da Nova SBE, conclui que as
disparidades territoriais continuam a marcar a realidade social
portuguesa, apesar da redução global da pobreza observada nos últimos
anos.Em 2025, a taxa nacional de risco de pobreza fixou-se nos 15,4%, mas o valor variava significativamente entre regiões. O Alentejo apresentava a taxa mais elevada do país, com 17,9%, seguido dos Açores, com 17,3%. Em sentido oposto, a Grande Lisboa registava a menor incidência de pobreza, com 12,2%.Os Açores destacam-se, contudo, pelos níveis de privação material e social. Segundo
o relatório, 17,4% da população açoriana encontrava-se em situação de
privação material e social em 2024, o valor mais elevado entre todas as
regiões portuguesas e mais de seis pontos percentuais acima da média
nacional. A Madeira surgia na segunda posição, com 15,1%.Os
investigadores salientam que as desigualdades regionais não se limitam
aos rendimentos, refletindo-se também nas condições de vida, acesso a
serviços e qualidade da habitação.No caso
dos Açores, o relatório identifica níveis particularmente elevados de
privação alimentar e dificuldades no acesso a cuidados de saúde. Cerca
de 6,9% da população açoriana não conseguia assegurar uma refeição
proteica de dois em dois dias, enquanto 6,7% reportavam dificuldades no
acesso a consultas ou tratamentos médicos não dentários.A
região autónoma apresentava igualmente o coeficiente de Gini (que mede a
desigualdade de rendimentos) mais elevado do país, com 33,8.Já
na Madeira, embora a taxa de pobreza fosse ligeiramente inferior à dos
Açores, a privação material e social mantinha-se entre as mais elevadas
do país, evidenciando fragilidades persistentes nas condições de vida.A análise regional mostra ainda que diferentes territórios enfrentam problemas distintos. A
Grande Lisboa, apesar de registar a menor taxa de pobreza, apresentava
os níveis mais elevados de privação associados à poluição, sujidade e
ruído nas zonas residenciais.As regiões
Norte e Açores lideravam nas dificuldades em manter as habitações
confortavelmente frescas durante o verão, com 33,1% da população a
reportar incapacidade para assegurar condições térmicas adequadas.Na
Península de Setúbal, os problemas relacionados com criminalidade,
violência e vandalismo surgiam acima da média nacional, afetando 14,6%
dos residentes.O relatório sublinha também que o impacto das transferências sociais varia significativamente entre regiões.Nos
Açores e na Madeira, os apoios sociais reduzem a taxa de pobreza em
cerca de oito pontos percentuais, revelando maior dependência das
prestações sociais para atenuar situações de vulnerabilidade económica.Em
contraste, na Grande Lisboa e na região Centro, o impacto das
transferências sociais é menor, traduzindo-se numa redução da pobreza de
cerca de quatro pontos percentuais.Os
investigadores consideram que estes dados evidenciam “fragilidades
estruturais persistentes” e mostram que a melhoria dos indicadores
nacionais não elimina desigualdades profundas entre regiões.Além
da dimensão económica, o relatório associa as assimetrias territoriais a
dificuldades no acesso à habitação, alimentação, saúde e bem-estar,
defendendo a necessidade de políticas públicas diferenciadas e ajustadas
às especificidades regionais.O estudo
conclui que, apesar da trajetória de redução da pobreza em Portugal, os
indicadores regionais revelam uma realidade “muito desigual”,
particularmente nas regiões autónomas, onde pobreza, privação e
dependência de apoios sociais continuam a assumir expressão
significativa.