Açores em projeto de prevenção personalizada do cancro
Hoje 09:35
— Rui Jorge Cabral
O Centro de Oncologia dos Açores integra a Rede de Ação Conjunta de
Especialistas em Cancro, uma iniciativa financiada pela União Europeia. Nesta
rede existem vários grupos de trabalho que abordam desde as diferentes
vertentes da prevenção às novas tecnologias de tratamento, passando
pelos cuidados paliativos e pela sobrevivência ao cancro. O Centro de Oncologia dos Açores integra esta rede europeia na área da prevenção personalizada do cancro. E
como se faz a prevenção personalizada? Analisando, por exemplo, a
interação entre fatores genéticos ou geográficos, ambientais e estilos
de vida, para que se possa fazer um mapeamento dos fatores de risco do
cancro, que permita a implementação de estratégias dirigidas a uma
população específica. Conforme explica em declarações ao Açoriano
Oriental o presidente do Centro de Oncologia dos Açores, João Macedo, a
prevenção personalizada nos Açores irá permitir, com o recurso à
inteligência artificial e às potencialidades do projeto do Hospital
Digital, uma melhor seleção da população de risco, das estratégias e até
das zonas do arquipélago onde é preciso atuar de uma forma mais intensa
para prevenir o surgimento de cancros. Até porque, afirma João
Macedo, “o cancro é uma área que, não só aqui nos Açores, mas também a
nível nacional e internacional, vai crescer muito nos próximos anos em
termos de incidência”, devido ao crescimento e envelhecimento da
população, colocando cada vez maior pressão nos sistemas de saúde.Refira-se
que a Rede de Ação Conjunta de Especialistas em Cancro (JANE na sigla
inglesa) é atualmente um dos mais relevantes projetos europeus na área
da oncologia, reunido 121 organizações - entre elas o Centro de
Oncologia dos Açores - de 29 países europeus.Esta rede realizou
recentemente um encontro em Ponta Delgada, dedicado à prevenção primária
e secundária personalizada do cancro, com o objetivo de desenvolver
estratégias preventivas inovadoras. O Centro de Oncologia dos Açores
lidera em conjunto com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
uma tarefa específica desta rede relacionada com a prevenção
personalizada do cancro, com o objetivo de desenvolver normas
orientadoras inovadoras para políticas na área da prevenção
personalizada do cancro. Nesta área há desafios que se colocam a
nível europeu e transversal, nalguns casos, mas também ao nível mais
específico dos Açores. Por exemplo, a um nível transversal, está o
desenvolvimento de estratégias dirigidas às populações imigrantes,
muitas delas provenientes de países onde não tiveram o mesmo
acompanhamento de saúde na infância que existe na Europa.No caso
específico dos Açores, estão já definidas no Plano Regional de Saúde
duas áreas prioritárias para onde deve serdirecionada a prevenção
personalizada do cancro. Uma delas é o combate ao tabagismo porque,
conforme explica JoãoMacedo, “nós temos no consumo de tabaco um grave
problema, que é um fator de risco não só para o cancro, mas também para
outras doenças, sendo aliás responsável pela grande maioria dos cancros
do pulmão”. E o cancro do pulmão é o que regista maior mortalidade
nos Açores. Nesse sentido, existe o projeto-piloto do rastreio do cancro
do pulmão. Mas também o cancro colorretal tem muita prevalência nos
Açores. E conforme afirma o presidente do Centro de Oncologia dos
Açores, “vamos ter uma aposta muito forte na melhoria da participação no
rastreio” do cancro colorretal, “porque ainda não é tão elevada como
nós gostaríamos”. E para uma prevenção mais personalizada, irá
recorrer-se a ferramentas de inteligência artificial com o objetivo de
melhorar a participação no rastreio do cancro colorretal nos grupos de
maior risco. Outro fator essencial é a literacia em saúde. Isto
porque, conclui João Macedo, “os resultados em saúde não dependem tanto,
como tendemos a pensar, do sistema de saúde. A literatura diz que o
sistema de saúde tem um impacto inferior a 30%”, tendo a literacia em
saúde um impacto muito superior. Ou seja, a informação que capacita
as pessoas para adaptarem os seus hábitos e poderem ter estilos de vida
que permitam evitar a médio e longo prazo o aparecimento de doenças.