Açores e Madeira temem que diploma para simplificar contratos públicos ponha em causa transparência
29 de set. de 2020, 20:25
— Lusa/AO online
A
secretária regional dos Transportes e das Obras Públicas dos Açores,
Ana Cunha, e o secretário regional dos Equipamentos e das
Infraestruturas da Madeira, Pedro Fino, foram ouvidos esta tarde no
parlamento sobre esta proposta de lei pela Comissão de Economia,
Inovação, Obras Públicas e Habitação.Em
causa está uma proposta de lei que estabelece medidas especiais de
contratação pública e altera o Código dos Contratos Públicos, com o
objetivo de os simplificar e desburocratizar, aumentando a eficiência da
despesa pública. Assim, são agilizados os
procedimentos “para a celebração de contratos nas áreas da habitação
pública ou de custos controlados, para a aquisição de bens e serviços no
âmbito das tecnologias de informação e conhecimento, para contratos que
tenham como objeto a execução de projetos cofinanciados por fundos
europeus e para contratos que executem medidas de execução do Programa
de Estabilização Económica e Social (PEES)”.Prevê,
igualmente, a alteração do Código de Processo nos Tribunais
Administrativos, tendo em vista “descongestionar os tribunais,
designadamente na vertente do contencioso pré-contratual” ao promover “a
redução do número de procedimentos pré-contratuais suspensos por
impugnação da decisão de adjudicação”.Na
sua intervenção, a representante do Governo dos Açores começou por
apontar alguns dos aspetos menos positivos desta alteração, apontando
para o facto de a simplificação de procedimentos menos concorrenciais
poder pôr em causa questões como a igualdade de tratamento, não
discriminação, transparência e proporcionalidade”.No
entanto, Ana Cunha ressalvou que o Governo dos Açores vê “com agrado e
bons olhos” as alterações preconizadas em relação ao código nos
tribunais administrativos, uma vez que acredita que irá diminuir os
prazos de tratamento de processos judiciais.Por
seu turno, o secretário regional dos Equipamentos e das Infraestruturas
da Madeira ressalvou que, apesar das alterações trazerem “enormes
vantagens” no objetivo de acelerar a concretização dos projetos, pode
suscitar dúvidas relativamente à sua compatibilização com o princípio da
concorrência, o princípio da economia, e o princípio da boa gestão e a
estratégia de combate à corrupção.Ainda a
este propósito, Pedro Fino apontou para o facto de o atraso na
concretização dos projetos não se dever apenas à burocratização da
contratação pública, mas também à morosidade relativamente ao
cumprimento da legislação em matéria de despesa pública, nomeadamente a
lei de enquadramento orçamental, a lei dos compromissos e a necessidade
de submissão a fiscalização prévia do Tribunal de Contas.A
última crítica apontada foi à obrigatoriedade dos ajustes diretos
simplificados, ao abrigo destas medidas especiais, terem de tramitar
numa plataforma eletrónica, facto que o Governo da Madeira considera “um
passo atrás na desburocratização dos processos”, uma vez que atualmente
este procedimento “dispensa formalidades”.“Não
obstante, a região considera que a adequada utilização das medidas
especiais, previstas neste projeto lei, podem efetivamente contribuir
para minimizar a morosidade e assegurar uma maior taxa de concretização
dos projetos cofinanciados, representando uma janela de oportunidade
para a região autónoma, bem como alavancar as pequenas e medias empresas
no contexto de crise pandémica”, atestou.Nesta
audição participaram também a Associação Nacional de Municípios
Portugueses (ANMP), a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE), a
Ordem dos Arquitetos e a Ordem dos Engenheiros.