Açores comemoram 50 anos de autonomia forjada no independentismo
Hoje 14:15
— Lusa/AO Online
Há
50 anos, venceu o Partido Popular Democrático (PPD), liderado por João
Bosco Mota Amaral, com maioria absoluta (53,83% dos votos expressos), o
que permitiu assegurar 27 mandatos, contra 14 do PS e dois do CDS-PP.O primeiro Governo Regional, liderado por Mota Amaral, tomou posse a 08 de setembro de 1976.O
primeiro movimento autonomista dos Açores nasce no século XIX como
consequência do descontentamento dos açorianos “contra o centralismo de
Lisboa”.O movimento viria a ganhar
dimensão com a publicação de um decreto de 02 de março de 1895,
impulsionado por Aristides Moreira da Mota, que concedeu a primeira
autonomia administrativa e criou os distritos autónomos dos Açores.Em
declarações à agência Lusa, em abril de 2016, o professor da
Universidade dos Açores Carlos Cordeiro - que dedicou grande parte da
sua vida académica ao estudo do regionalismo e da autonomia - explicou
que desde meados do século XIX se assistiu ao começo da “afirmação de
uma consciência açoriana”, sobretudo insular, mas numa “perspetiva
negativa”.“Ou seja, baseada no princípio
de que os Açores eram prejudicados ao nível do investimento público e da
despesa, entre outros aspetos, relativamente ao que se estava a passar
no continente”, referiu o investigador.Carlos
Cordeiro acrescentou que na década de 80 do século XIX surgiram,
simultaneamente, ideias independentistas nos Açores “oriundas do
republicanismo federalista (esquerda da época)”, a defender a separação
do país ou, pelo menos, a constituição de um estado de uma federação
portuguesa.Neste primeiro momento
autonómico emergiram figuras como Aristides Pereira da Mota, Montalverne
de Sequeira e Caetano de Andrade Albuquerque.Com
a implantação da República, a 05 de outubro de 1910, assistiu-se à
tentativa, liderada por intelectuais da altura, da “afirmação muito
consistente da identidade regional”, não se tratando exclusivamente de
uma questão político-administrativa.De
acordo com o historiador, quando surgiu o Estado Novo, em 1933, foi
nomeado para o arquipélago um representante especial do Governo da
República, o açoriano coronel Silva Leal, que verificou o
“descontentamento local” relativamente à administração central,
conseguindo um decreto que favorecia as juntas gerais autónomas.Já
a 22 de agosto de 1975 foi criada a Junta Administrativa e de
Desenvolvimento Regional (a Junta Regional dos Açores), na sequência do
levantamento popular de 06 de junho do mesmo ano em Ponta Delgada e,
menos de um ano depois, foi aprovado o Estatuto provisório da Região
Autónoma dos Açores.Avelino Meneses,
professor catedrático e historiador, referiu em declarações à Lusa, em
junho de 2022, que a manifestação realizada a 06 de junho de 1975, em
Ponta Delgada, conotada com o independentismo, é a “causa principal” da
institucionalização da autonomia dos Açores, instaurada em 1976.Avelino
Menezes considerou que a FLA - Frente de Libertação dos Açores teve em
1975 um “papel fulcral para o futuro dos Açores”, uma vez que “sem a
pressão separatista, sobretudo sem o temor do 06 de junho, jamais os
Açores e a Madeira teriam alcançado uma autonomia política ampla e
avançada”.Documentos secretos
desclassificados revelam que, em 1975, os Estados Unidos ponderaram
apoiar a independência dos Açores e chegaram a planear a ocupação
militar da Base das Lajes.A prioridade de
Washington era travar um eventual avanço comunista em Portugal, conforme
sustentou o especialista em Relações Internacionais e académico Luís
Andrade, em declarações à Lusa.