Açores com o limiar da pobreza mais baixo do país: menos 67 euros mensais do que o nacional
5 de jun. de 2025, 09:44
— Carlota Pimentel
Os Açores tiveram em 2024 o limiar da pobreza mais baixo do país, uma
vez que nesta região se considera em situação de pobreza quem tem um
rendimento líquido inferior a 565,83 euros mensais. Já no todo nacional,
esse valor foi de 632,33 euros, o que representa uma diferença de 67
euros por mês. Segundo o relatório “Portugal, Balanço Social 2024”,
em termos anuais, o limiar de pobreza traduz-se em 6790 euros nos
Açores, face aos 7588 euros no conjunto do país.Quando se aplica o
limiar nacional, a taxa de pobreza na Região Autónoma dos Açores (24,2%)
é a mais alta do país. No entanto, de acordo com o limiar regional, os
Açores passam a ser a terceira região de Portugal (18,3%), ficando atrás
da Península de Setúbal (20%), cujo limiar é de 7886 euros anuais, e da
Grande Lisboa (19,2%), cujo limiar é de 8952 euros anuais. Os dados
do relatório revelam que as Regiões Autónomas têm mais privação
material e social e valores elevados de desigualdade do que Portugal
continental. Ainda assim, a taxa de pobreza nas Regiões Autónomas
diminuiu entre 2023 e 2024.A privação material e social severa
desceu entre 2022 e 2023 em todas as regiões do país, com exceção dos
Açores e da Área Metropolitana de Lisboa. O Alentejo apresenta a taxa
mais baixa (3%), enquanto os Açores (12%) e a Madeira (6,3%) registam os
valores mais elevados. Nos Açores, mais de uma em cada 10 pessoas
estava em situação de privação material e social severa em 2023.O
estudo apresenta também o coeficiente de Gini, que mede a desigualdade
na distribuição dos rendimentos. Entre 2022 e 2023, a desigualdade
aumentou na generalidade das regiões. Os Açores eram a região com maior
desigualdade, seguidos pela Área Metropolitana de Lisboa e pela Madeira. De acordo com o relatório da autoria dos investigadores Susana
Peralta, Bruno P. Carvalho e Miguel Fonseca da Nova School of Business
& Economics (Nova SBE), os níveis de privação em termos de saúde,
habitação e alimentação são mais altos nas Regiões Autónomas. Os
Açores têm a maior percentagem de privação em oito dos indicadores
analisados e a Madeira em cinco. Destaca-se a proporção de pessoas que
não consegue ter uma refeição com proteína de dois em dois dias (10,6%
nos Açores e 7,6% na Madeira) e a percentagem de pessoas que não teve
acesso a consultas ou tratamentos médicos não dentários (9,3% nos
Açores). É referido que em 2023, um em cada 10 agregados familiares
nos Açores não conseguia garantir uma refeição proteica de dois em dois
dias. O relatório analisa ainda o impacto das transferências sociais
na redução da pobreza. Conforme o documento, o efeito destas
transferências é mais acentuado nas Regiões Autónomas: nos Açores e na
Madeira, a ausência de transferências sociais (excluindo pensões)
implicaria um aumento de 6,6 pontos percentuais na taxa de pobreza. No
Norte, as transferências sociais reduzem a taxa de pobreza de 23,8% para
18,8%. Na Área Metropolitana de Lisboa, o impacto é mais reduzido, com
uma diminuição de três pontos percentuais.O estudo indica que “em
2023, a redução na taxa de pobreza decorrente das transferências sociais
é duas vezes maior nas regiões autónomas do que na Área Metropolitana
de Lisboa”. Refira-se que o Relatório do Balanço Social é uma
publicação da Nova SBE, com base nos dados do Inquérito às Condições de
Vida e Rendimento (ICOR) do Instituto Nacional de Estatística (INE).