Açores celebram 50 anos de autonomia com olhos no futuro
Hoje 09:11
— Filipe Torres
A Região Autónoma dos Açores celebrou os 50 anos da tomada de posse do I Governo Regional com uma sessão comemorativa no Palácio da Conceição, em Ponta Delgada, que reuniu atuais e antigos protagonistas da Autonomia política dos Açores.Numa sala praticamente cheia, o primeiro presidente do Governo Regional dos Açores, João Bosco Mota Amaral, regressou às memórias dos primeiros anos e deixou vários agradecimentos, enquanto o atual líder do executivo regional, José Manuel Bolieiro, procurou projetar para as próximas décadas o caminho iniciado em 1976.João Bosco Mota Amaral começou a sua intervenção ao recordar os primeiros anos do regime autonómico e as dificuldades então enfrentadas.No seu discurso, Mota Amaral começou por se questionar sobre o que deveria dizer numa ocasião que considerou particularmente significativa, mencionando vários dos principais momentos dos primeiros anos da autonomia.“Que farei, que direi”, questionou o primeiro líder do executivo regional açorianos, antes de enumerar os diferentes temas que poderia abordar: desde o “entusiasmo dos primeiros tempos” às dúvidas e receios iniciais, passando pelas resistências encontradas e pela afirmação política dos Açores.Através de várias perguntas retóricas, João Bosco Mota Amaral percorreu também a questão da unidade açoriana, a relação com a Europa e a participação dos Açores nas relações internacionais.Entre as ideias recordadas por Mota Amaral esteve a forma como entendia a autonomia enquanto instrumento de afirmação dos Açores dentro de Portugal. O primeiro presidente do Governo Regional dos Açores lembrou o objetivo de construir uma autonomia “total e completa”, defendendo que esta não representava um afastamento de Portugal, mas uma forma de os açorianos participarem no país com maior capacidade de decisão.A unidade do povo açoriano foi outro tema abordado. Mota Amaral referiu-se aos açorianos que vivem nas nove ilhas e às comunidades espalhadas pelo mundo, defendendo a importância de preservar os laços que unem a Região Autónoma dos Açores. Além disso, mencionou a integração europeia e a necessidade de os Açores afirmarem a sua especificidade enquanto território insular eultraperiférico.A memória dos primeiros anos da autonomia passou igualmente pelo grande sismo de 1 de janeiro de 1980, com intensidade de 7,2 na escala de Richter e epicentro no mar, a 35 quilómetros a sudoeste da cidade de Angra do Heroísmo, que matou 73 pessoas e deixou mais de 20 mil desalojadas, afetando as ilhas Terceira, Graciosa e São Jorge.Mota Amaral recordou a resposta solidária e a necessidade de avançar rapidamente com a reconstrução, afirmando que foi preciso “secar as lágrimas e arregaçar as mangas” depois da tragédia.O desenvolvimento das ilhas ocupou igualmente parte da intervenção. Mota Amaral questionou se deveria falar “do desenvolvimento lançado em todas as nossas ilhas, vencendo atrasos históricos”, referindo as novas vias de comunicação, os portos e aeroportos, assim como as escolas e hospitais planeados e construídos.Contudo, Mota Amaral considerou que esses temas foram “amplamente abordados” ao longo dos seus quase 20 anos à frente do Governo Regional e nos anos seguintes.O primeiro presidente do Governo Regional dos Açores deixou vários agradecimentos, desde os seus colegas e apoiantes até aos que nunca o apoiaram. Deixou ainda um agradecimento ao atual líder do executivo regional, José Manuel Bolieiro.Após o seu discurso, Mota Amaral recebeu palmas de uma plateia que estava toda de pé.Conhecimento e qualificação para o futuroJosé Manuel Bolieiro destacou particularmente João Bosco Mota Amaral, considerando que a autonomia política dos Açores está“profundamente ligada à sua visão, à sua determinação e à sua coragem política”.Para Bolieiro, o primeiro Governo Regional teve como principal desafio combater “o atraso secular dos Açores” e promover o desenvolvimento da Região e dos açorianos.Depois de 50 anos, o atual líder regional considerou que o balanço da autonomia é positivo.“É por isso que podemos dizer, com confiança, que a Autonomia Política valeu a pena. É um caso democrático de sucesso”, afirmou Bolieiro. Contudo, reconhece que a autonomia não eliminou todos os problemas, não é uma “varinha mágica” e que o percurso de desenvolvimento da Região ainda não está concluído.O presidente do Governo Regional defendeu que os Açores devem passar de uma visão centrada nas necessidades provocadas pela insularidade para uma perspetiva que valorize também as oportunidades criadas pela posição geográfica da Região.Bolieiro defende que os Açores podem afirmar-se como uma “nova centralidade atlântica”, aproveitando a sua posição estratégica para Portugal e para a União Europeia.A qualificação dos açorianos surge, assim, como uma das prioridades. “E é aqui que começa o novo ciclo da nossa Autonomia Política:A Autonomia do conhecimento. Da qualificação diferenciada dos açorianos porque, afinal, o principal ativo dos Açores são os açorianos. Não há economia do futuro sem pessoas qualificadas. Não há inovação sem conhecimento. Não há desenvolvimento sem talento. Não há verdadeira Autonomia se não formos capazes de dar às novas gerações condições para construírem o seu futuro nas nossas ilhas. Temos, por isso, de formar mais e melhor”, salientou Bolieiro.O mar, a ciência, o espaço, a economia azul, a economia verde, a transição energética e a transformação digital foram apontados como áreas com potencial para criar notas atividades económicas e emprego qualificado.O líder do executivo regional realçou a mudança do ciclo na expressão “Autonomia do conhecimento”, defendendo que os próximos 50 anos devem acrescentar novas capacidades ao trabalho iniciado pela geração fundadora.Homenagem ao I GovernoNo final da sessão, José Manuel Bolieiro entregou várias medalhas de comemoração dos 50 anos do I Governo Regional às pessoas que fizeram parte dele: João Bosco Mota Amaral; Raúl Gomes dos Santos, José Melo Alves, José Guilherme Reis Leite, António Gentil Lagarto, Rui Mesquita, Germano da Silva Domingos, António Ferreira, José Pacheco de Almeida, João Rodrigues, João Vasco Paiva, Américo Natalino Viveiros, José Correia da Cunha, Luís Falcão de Bettencourt, Ezequiel Moreira da Silva, Manuel Martins Mota, José Nunes Liberato, Alberto Madruga da Costa e Maria de Fátima da Silva Oliveira.