Açores apresentam “elevadíssima” taxa de gravidez na adolescência
28 de jul. de 2025, 17:23
— Lusa/AO Online
“Os
Açores registam hoje uma taxa elevadíssima de gravidez na adolescência,
porque muitas jovens têm receio de contar aos pais ou aos namorados que
estão grávidas”, realçou a presidente da UMAR/Açores, Maria José
Raposo, durante uma audição na Comissão de Assuntos Sociais da
Assembleia Legislativa Regional, que esteve reunida em Ponta Delgada.Os
deputados ao parlamento açoriano estão a ouvir várias instituições, a
propósito de duas propostas, apresentadas pelos deputados do PAN e do
BE, que pretendem facilitar o acesso à IVG por parte das pacientes
residentes no arquipélago, muitas das quais têm de se deslocar ao
continente para completar o tratamento.Maria
José Raposo queixou-se também da demora na resposta médica aos pedidos
de realização de IVG nos Açores, que muitas vezes obrigam a pedidos de
informação adicionais, exames complementares, consultas de psicologias,
apoio social e marcação de viagens para outra ilha ou para o continente
português."Muitas vezes a IVG, que devia
poder ser feita de um dia para o outro, num dos três hospitais dos
Açores, obriga as mulheres a esperar 15 dias”, entre consultas, exames,
viagens e deslocações, advertiu.Também
Patrícia Cardoso, da “Associação Escolha”, dedicada ao apoio às mulheres
que pretendam realizar IVG, criticou a legislação nacional sobre o
aborto por, no seu entender, “penalizar” quem a faz. Desde que a lei foi
aprovada, há 18 anos, referiu, 58 mulheres foram a tribunal e 33 delas
chegaram a ser condenadas, embora com penas suspensas.“É
penoso ver a forma como muitas mulheres continuam a ser tratadas. É
muito grave que as mulheres sejam penalizadas por uma decisão que devia
ser só delas”, insistiu Patrícia Cardoso, lamentando que em Portugal o
aborto apenas seja possível nas primeiras 10 semanas de gestação.A
responsável pela “Associação Escolha” queixou-se ainda do “assédio
moral” de que são alvo as mulheres que pretendem interromper a gravidez
nos Açores, um arquipélago que considerou “machista e retrógrado” e onde
existem também muitos casos de violência doméstica.António
Lima, deputado único do BE no parlamento açoriano explicou, durante a
reunião, que há nos Açores um número elevado de médicos objetores de
consciência (recusam-se a realizar IVG), obrigando muitas mulheres a
deslocarem-se ao continente: “É um claro constrangimento e uma barreira
no acesso à interrupção voluntária da gravidez.”A
secretária regional da Saúde e da Segurança Social, Mónica Seidi,
explicou que, na região, apenas no Hospital do Divino Espírito Santo, em
Ponta Delgada, existem médicos disponíveis para realizarem abortos. No
Hospital do Santo Espírito, na Terceira, não há clínicos disponíveis
para o efeito e no Hospital da Horta, no Faial, apenas há um médico
disponível, mas a lei sobre o aborto obriga a que a IVG
seja realizada por pelo menos dois médicos obstetras.“Há
uma carência significativa de recursos humanos nesta área”, reconheceu
Mónica Seidi, lembrando que “os últimos concursos lançados para a
contratação de médicos obstetras nos Açores têm ficado desertos”.Numa
audição anterior sobre o tema, a Associação para o Planeamento Familiar
e Saúde Sexual nos Açores já tinha referido que a objeção de
consciência invocada pelos profissionais de saúde dos Açores não devia
colocar em causa o acesso das pacientes à interrupção voluntária da
gravidez.Segundo dados divulgados pela
associação, em apenas um ano, 158 mulheres açorianas requereram a
interrupção voluntária da gravidez, mas apenas 10% conseguiram fazê-la
no arquipélago. As restantes tiveram de se deslocar ao continente.