Açores alargam aplicação do programa de prevenção "Eu e os outros"
3 de fev. de 2023, 17:57
— Lusa
“Foi
possível concluir que há uma boa adesão por parte dos miúdos e refletir
sobre as dificuldades de implementação. A aposta foi muito nas escolas e
as escolas estão muito sobrecarregadas. A adesão dos professores não
foi plena e considerou-se que era mais importante passarmos a trabalhar
com populações de risco, daí que tenhamos passado a intervir com os CDIJ
com uma dinâmica diferente, que vai no segundo ano de intervenção”,
afirmou, em declarações aos jornalistas, o coordenador do projeto, Raul
Melo.O responsável do Serviço de
Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD) iniciou
hoje uma formação, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, com técnicos
de vários CDIJ dos Açores.Promovido pelo
SICAD desde 2007, o programa, dirigido a jovens entre os 10 e os 18
anos, “visa o desenvolvimento de competências sociais e emocionais”, com
base em histórias que abordam comportamentos aditivos e que são
contadas de forma a que os participantes se possam identificar com as
personagens e tomar decisões, “antecipando as consequências e os riscos
associados”.“O projeto o que tenta fazer é
não focar excessivamente sobre as questões das substâncias. Aquilo que à
partida é protetor relativamente aos comportamentos aditivos tem a ver
com competências mais alargados. As questões de autoestima, a capacidade
de comunicar, como comunicar afetos, a capacidade de resolver e tomar
decisões são transversais. Eu posso estar a trabalhar isto com outros
temas e estar a fazer prevenção na área dos comportamentos aditivos”,
revelou Raul Melo.Segundo Patrício Vieira,
um dos animadores socioculturais da Casa do Povo de Santa Bárbara que
implementou o projeto-piloto nos Açores, os jovens aderiram bem ao
programa e “têm vontade de continuar”.“Dá-lhes
ferramentas, põe-nos a pensar, põe-nos a discutir uns com os outros,
ensina-os muito. E, para nós, que estamos do outro lado, ajuda-nos a dar
muitas ferramentas, que depois podemos usar noutro tipo de
intervenções. É um programa muito rico, que a gente espera continuar a
fazer, porque para nós e para os miúdos é muito bom”, afirmou.A forma como a abordagem é feita permite também uma melhor recetividade por parte dos jovens.“Quando
fazemos este tipo de dinâmicas, eles estão a aprender durante aquele
tempo, são incentivados a discutir. Conseguem discutir e expor as suas
ideias e, por isso, é que há menos resistência”, explicou Patrício
Vieira.Raul Melo defendeu que esta
abordagem é mais eficaz do que a abordagem informativa, porque, em vez
de apontar soluções, os promotores procuram ajudar os jovens a encontrar
soluções.“Os miúdos mais opositores,
provavelmente se lhes apontam uma direção vão considerar que a decisão
não é boa. Ajudá-los a descobrir as suas próprias opções é uma forma de
trabalhar com estas populações vulneráveis e de lhes proporcionar um
sentimento de competência, que é aquilo que eles precisam de ter, em vez
de sentirem que a vulnerabilidade os coloca a serem vistos de uma forma
diferente”, salientou.Segundo o
coordenador do projeto, na avaliação que é feita após a aplicação do
programa tem sido possível observar “atitudes contra o consumo” de
substâncias.O SICAD está agora também
focado na abordagem de comportamentos aditivos sem substâncias, como as
dependências da Internet ou dos jogos, “realidades que estão a emergir" e
que obrigam a "ter respostas”.Os Açores são uma das regiões do país com maiores consumos de substâncias aditivas entre os jovens.O
secretário regional da Saúde e Desporto, Clélio Meneses, sublinhou que a
prevenção é a forma mais eficaz de combater o problema.“Tudo
o que seja tratamento, reinserção, já estamos a trabalhar num fim de
linha que tem um escasso grau de possibilidade de sucesso, mas apenas de
minimização de danos e de redução de riscos. A nossa aposta é clara e
convictamente a de promover tudo aquilo que esteja ao nosso alcance para
garantir melhores ferramentas de prevenção”, assegurou.