Acordo do PSD/CDS-PP não vai ser "um passeio no parque"
Eleições/Madeira
27 de set. de 2023, 07:20
— Lusa/AO Online
Pegando
no exemplo dos Açores, a professora de Ciência Política do Instituto
Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de
Lisboa questiona o que acontecerá “do ponto de vista da prática
parlamentar no dia-a-dia”, se após várias votações do mesmo diploma,
este não for aprovado e passar para a sessão legislativa seguinte?“Isto
cria bloqueios institucionais não só do próprio parlamento. Mas imagine
que há um diploma do governo que vai ao parlamento e que cai nesta
situação. Há um bloqueio institucional efetivo, o que para a governação
não é propriamente um passeio no parque, porque, quer dizer, dado que é
aquela assunção do Miguel Albuquerque, que é difícil governar dia-a-dia,
diploma a diploma”, salientou Teresa Ruel.Para
a investigadora das dinâmicas políticas das regiões autónomas, por isso
é que “não foi possível chegar a acordo com a Iniciativa Liberal”,
porque o caderno de encargos era substantivo”, designadamente com o
pacote da baixa de impostos.A agenda da
Iniciativa Liberal (IL) era demasiado pesada para "aqueles que foram os
compromissos eleitorais assumidos pela coligação, portanto, seria
governar com outro programa e não com o programa da própria coligação”,
apontou Ruel.Voltando ao exemplo do
governo dos Açores, coligação PSD/CDS/PPM que está em maioria relativa e
necessita de apoio parlamentar, neste caso da IL, do Chega e do
deputado independente, lembrou que para as suas propostas passarem e o
orçamento ser aprovado, os liberais lembram sempre que “têm que
negociar”.Na Madeira, vai depender de
“como é que o governo vai fazer esta gestão, se propõe ele, em decreto,
em projeto de decreto ou se é o próprio parlamento, através das bancadas
parlamentares, ou seja, do PSD ou do CDS, ou mesmo do PAN”, a avançar
com as propostas, disse.“A estratégia da
ação política depois depende daquela que é a própria natureza e o
próprio tópico do diploma a ser a ser apresentado”, considerou, frisando
que, nesse caso, haverá “momentos em que vai haver necessidade de ir
buscar um voto a algum lado”.Nesse
sentido, apesar do acordo com o PAN “como viabilizador da maioria no
parlamento”, o que “tem um cariz utilitário”, Teresa Ruel sublinhou que o
PAN “também deixou no ar que, nas medidas que não necessitem de uma
validação” sua, “claramente abstém-se de participar nessa viabilização,
da maioria no parlamento, e também não deixa de ser interessante essa
posição”.Referindo-se às medidas
conhecidas do acordo, a investigadora considerou que não têm “uma
estratégia de política pública” e são “uma coisa avulsa”, como, por
exemplo, a “vacinação gratuita para os animais”, porque quem não tem
animais não beneficia da medida.“Estou a
caricaturar uma medida, mas estou a caricaturar uma das medidas que
foram anunciadas”, admitiu Teresa Ruel, acrescentando que há processos
complicados que tocam nos “pesos pesados da intervenção do PAN” ou nas
suas causas, como a ambiental, com a estrada que vai atravessar a
floresta Laurissilva, que está em tribunal por uma ação popular, ou um
teleférico para o Curral das Freiras, que está em concurso, “portanto,
já está decidido”.“Aquilo não vai parar
porque tem a ver com aquilo que são os interesses económicos e aquilo
que é o investimento já feito, e a deputada eleita disse mesmo que o que
conta é daqui para a frente, o que está para trás, está para trás”,
vincou.Em termos gerais, perante a vitória
da coligação PSD/CDS-PP com 23 deputados, a investigadora do ISCP
destacou como tendência “a descida do PSD e a perda da confirmação da
maioria absoluta que tinha sido averbada em 2019” e “uma perda também
substancial do CDS”, embora apresentando-se em coligação e, por isso,
não se saber “muito bem quais são as perdas efetivas”.Já
o PS “efetivamente não conseguiu imprimir ou validar esta dinâmica de
competição política de 2019, que esteve à beira também da alternância
política”, mas, apesar de um PSD “gasto e completamente ausente” e “já
esgotado do ponto de vista daquilo que é a oferta política”, os
socialistas não têm “um projeto alternativo que possa substituir esta
governação de 47 anos do PSD”.“Aquilo que
nós vemos é que, e com base também naquilo que foi a expressão de votos
nos partidos mais pequenos, o eleitorado está efetivamente fatigado.
Existe uma fadiga associada a estes anos e esta longevidade de
governação, mas não há uma alternativa política em que os eleitores
efetivamente possam confiar”, notou.Por
outro lado, com a eleição de novos partidos, o Chega e IL, duas
reentradas, do Bloco de Esquerda e PAN, o reforço do Juntos Pelo Povo
(JPP) e a confirmação da CDU, “o cenário pós-eleitoral e de
funcionamento do parlamento regional em nada colide com aquilo que será,
ou aquilo que tem sido a governação”.Para
Teresa Ruel, a subida do Chega “é o ímpeto Ventura, não é mais do que
isso”, pois “os próprios candidatos do Chega são dissidentes do PSD,
portanto, não há aqui novidade nenhuma”.Nas
eleições de domingo, a coligação PSD/CDS-PP obteve 43,13% dos votos
(58.399 votos) e 23 lugares no parlamento regional, constituído por um
total de 47 deputados.Miguel Albuquerque
(PSD), que no rescaldo eleitoral fechou a porta a qualquer acordo com o
Chega, confirmou na terça-feira um acordo de incidência parlamentar de
quatro anos com o PAN, viabilizando assim uma maioria absoluta no
hemiciclo.Há quatro anos, o PSD elegeu 21
deputados, perdendo pela primeira vez a maioria absoluta que detinha
desde 1976, e formou um governo de coligação com o CDS-PP (três
deputados).A segunda força política mais
votada no domingo foi o PS, com 11 mandatos, o JPP conseguiu cinco, o
Chega quatro, enquanto a CDU (PCP/PEV), a IL, o BE e o PAN elegeram um
deputado cada.