Acesso a habitação e saúde são principais dificuldades para refugiados
Ucrânia/1 ano
20 de fev. de 2023, 08:27
— Lusa/AO Online
“A maior dificuldade
que têm é a habitação”, afirmou Yuliya Hryhor'yeva à agência Lusa,
apontando os preços, a escassez de alojamento e os poucos rendimentos
dos refugiados.A presidente do núcleo, luso-ucraniana de 44 anos, há quase 20 radicada em Portugal, destacou ainda o acesso à saúde.“Embora
os refugiados tenham número de utente [do Serviço Nacional de Saúde], a
barreira linguística é um obstáculo grande quando as pessoas se dirigem
aos centros de saúde ou a médicos”, declarou Yuliya Hryhor'yeva.Assinalando
que sem tradutor os refugiados não entendem os médicos e os médicos não
entendem os refugiados, a dirigente referiu existir casos, fora das
urgências, de clínicos que se recusam a atender estes utentes.A
dirigente, que reside em Leiria com o marido (o primeiro a chegar a
Portugal) e os quatro filhos, e é cuidadora de um casal de idosos
portugueses, adiantou que a associação recebeu também relatos de
exploração laboral.A este propósito,
descreveu o caso de uma refugiada que ganhava um salário mensal de 400
euros e que quando questionou a entidade patronal lhe foi dito: “‘Eu não
te contratei porque precisava de um empregado. Eu contratei porque o
Estado fez proposta para te contratar, para te integrar. Mais do que
isso não vais receber’”.Outro caso reporta-se a uma portuguesa que oferecia alojamento em troca de trabalho de graça.Yuliya
Hryhor'yeva alertou ainda que há refugiados que aguardam há vários
meses para que lhe sejam atribuídos números de contribuinte ou de
utente, realçando que sem eles não podem ter ajudas, por exemplo, da
Segurança Social.A luso-ucraniana, que há
sete anos não vai ao país de origem, recebendo, ao invés, a visita de
familiares em Portugal antes da guerra, referiu não ter agora parentes
nas zonas de combate.“Eles estão bem
fisicamente, mas psicologicamente não estão muito bem. Eu acho que lá
ninguém pode estar bem”, salientou a presidente do núcleo de Leiria, que
recorda hoje o choque e a “raiva de impotência” de nada conseguir fazer
quando eclodiu o conflito.“Na minha
cabeça havia só uma frase: ‘O que eu posso fazer? O que é que eu posso
fazer?’. Não conseguia comer, nem dormir. Só estava agarrada às
notícias”, declarou, relatando a “muita ansiedade” que sentia, mas
também a necessidade de “fazer alguma coisa”.A
dirigente explicou que então a associação reuniu-se com a Câmara de
Leiria depois de esta entidade se ter disponibilizado para ajudar, e, em
parceria com a autarquia, ajudou na receção de refugiados.“O
meu papel cá foi movimentar pessoas e incentivar outras para que
ajudassem”, numa equipa onde estavam ucranianos e portugueses,
salientou.Segundo os dados fornecidos à
Lusa, o núcleo de Leiria da Associação dos Ucranianos em Portugal
(www.splika.pt) apoiou 100 famílias, sem concretizar o número de
pessoas, sobretudo mulheres e crianças.O núcleo continua a ajudar algumas famílias refugiadas com alimentação,
roupa ou calçado, na tradução de documentos e explicações sobre o
funcionamento das instituições nacionais, ou para os ouvir.“Muitos
procuram-nos para falar, porque precisam de apoio psicológico, mas a
barreira linguística impede que tenham”, acrescentou.