Abstenção na região tem razões "estruturais"

Eleições/Açores

13 de mar. de 2024, 12:46 — Lusa/AO Online

“O estudo mostra que há um número elevado de eleitores, em especial as mulheres e sobretudo as que possuem índices baixos de escolaridade, que têm uma distância grande face à política e o mesmo é dizer à participação eleitoral. As razões são estruturais e não de mera conjuntura”, afirmou, numa resposta por escrito, à agência Lusa.Entre os cinco concelhos do país com maior abstenção nas eleições legislativas de domingo estão quatro municípios açorianos.De acordo com os dados provisórios divulgados pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, o concelho da Ribeira Grande registou 61,4% de abstenção, Vila Franca do Campo 59,4%, Lagoa 57,3% e Vila do Porto 57,1%.Questionado sobre estes números, Álvaro Borralho defendeu que os resultados destes concelhos “não podem ser vistos separadamente dos resultados do círculo eleitoral Açores”.“A região apresenta a maior taxa de abstenção, 53,8%, quando a média nacional foi de 33,8%, ou seja, menos 20 pontos percentuais. O círculo eleitoral além dos Açores onde a taxa de participação eleitoral foi mais fraca, Bragança, tem de participação o mesmo que os Açores de abstenção. E é assim desde 1983. Com efeito, os Açores são a região onde a taxa de participação eleitoral é a mais baixa do país e esta eleição apenas confirma o que já se sabia”, adiantou.Álvaro Borralho, investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade dos Açores (CICS.UAc), coordenou o estudo “A Abstenção Eleitoral nos Açores”, pedido pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma.O trabalho, entregue em 2019, e realizado também por Gilberta Rocha e Osvaldo Silva, identifica entre as causas para uma maior abstenção na região um nível de escolaridade mais baixo.“Nem tudo se pode justificar por esta variável, como se foi chamando a atenção ao longo da análise. Mas o capital educativo continua a ser – como muitos estudos o comprovam para a sociedade portuguesa – o recurso mais diferenciador de todos, em especial quando se comparam comportamentos de sujeitos com elevado e baixo capital”, lê-se no estudo, consultado pela Lusa.Os grupos com menor participação nas eleições são caracterizados por serem “maioritariamente femininos” e com recursos económicos e “capital educativo” mais baixos.Ouvidos pela Lusa, os autarcas de alguns dos concelhos com maior abstenção na região apontaram como possível justificação o facto de os cadernos eleitorais estarem “inflacionados” com emigrantes.Álvaro Borralho admitiu que a emigração possa influenciar a abstenção, mas rejeitou que seja a principal causa.“O facto de residentes não se encontrarem no local da sua residência, de forma permanente ou prolongada, por exemplo, por terem emigrado, não pode ser considerado abstenção técnica, pois o ato de emigrar devia levar a que se recenseassem no país de destino. […] Continuar como eleitor num sítio e residir noutro pode, de facto, elevar um pouco a abstenção, mas não é a razão principal”, salientou.O estudo coordenado pelo sociólogo aponta várias medidas para combater a abstenção nos Açores, como uma maior “socialização política” e o “reforço dos laços de confiança entre cidadãos e protagonistas”.Uma das propostas passa pela promoção na Assembleia Legislativa de “um conjunto de iniciativas de participação dos cidadãos, além dos meios institucionais de participação – Conselhos de Ilha, Conselho Económico e Social, etc. –, que ouvisse e debatesse diretamente com os eleitores e não apenas com os seus representantes de ilha”.