“O
estudo mostra que há um número elevado de eleitores, em especial as
mulheres e sobretudo as que possuem índices baixos de escolaridade, que
têm uma distância grande face à política e o mesmo é dizer à
participação eleitoral. As razões são estruturais e não de mera
conjuntura”, afirmou, numa resposta por escrito, à agência Lusa.Entre os cinco concelhos do país com maior abstenção nas eleições legislativas de domingo estão quatro municípios açorianos.De
acordo com os dados provisórios divulgados pela Secretaria-Geral do
Ministério da Administração Interna, o concelho da Ribeira Grande
registou 61,4% de abstenção, Vila Franca do Campo 59,4%, Lagoa 57,3% e
Vila do Porto 57,1%.Questionado sobre
estes números, Álvaro Borralho defendeu que os resultados destes
concelhos “não podem ser vistos separadamente dos resultados do círculo
eleitoral Açores”.“A região apresenta a
maior taxa de abstenção, 53,8%, quando a média nacional foi de 33,8%, ou
seja, menos 20 pontos percentuais. O círculo eleitoral além dos Açores
onde a taxa de participação eleitoral foi mais fraca, Bragança, tem de
participação o mesmo que os Açores de abstenção. E é assim desde 1983.
Com efeito, os Açores são a região onde a taxa de participação eleitoral
é a mais baixa do país e esta eleição apenas confirma o que já se
sabia”, adiantou.Álvaro Borralho,
investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da
Universidade dos Açores (CICS.UAc), coordenou o estudo “A Abstenção
Eleitoral nos Açores”, pedido pela Assembleia Legislativa da Região
Autónoma.O trabalho, entregue em 2019, e
realizado também por Gilberta Rocha e Osvaldo Silva, identifica entre as
causas para uma maior abstenção na região um nível de escolaridade mais
baixo.“Nem tudo se pode justificar por
esta variável, como se foi chamando a atenção ao longo da análise. Mas o
capital educativo continua a ser – como muitos estudos o comprovam para
a sociedade portuguesa – o recurso mais diferenciador de todos, em
especial quando se comparam comportamentos de sujeitos com elevado e
baixo capital”, lê-se no estudo, consultado pela Lusa.Os
grupos com menor participação nas eleições são caracterizados por serem
“maioritariamente femininos” e com recursos económicos e “capital
educativo” mais baixos.Ouvidos pela Lusa,
os autarcas de alguns dos concelhos com maior abstenção na região
apontaram como possível justificação o facto de os cadernos eleitorais
estarem “inflacionados” com emigrantes.Álvaro Borralho admitiu que a emigração possa influenciar a abstenção, mas rejeitou que seja a principal causa.“O
facto de residentes não se encontrarem no local da sua residência, de
forma permanente ou prolongada, por exemplo, por terem emigrado, não
pode ser considerado abstenção técnica, pois o ato de emigrar devia
levar a que se recenseassem no país de destino. […] Continuar como
eleitor num sítio e residir noutro pode, de facto, elevar um pouco a
abstenção, mas não é a razão principal”, salientou.O
estudo coordenado pelo sociólogo aponta várias medidas para combater a
abstenção nos Açores, como uma maior “socialização política” e o
“reforço dos laços de confiança entre cidadãos e protagonistas”.Uma
das propostas passa pela promoção na Assembleia Legislativa de “um
conjunto de iniciativas de participação dos cidadãos, além dos meios
institucionais de participação – Conselhos de Ilha, Conselho Económico e
Social, etc. –, que ouvisse e debatesse diretamente com os eleitores e
não apenas com os seus representantes de ilha”.